quarta-feira, 17 de junho de 2015

A vocação conservadora da classe média brasileira

Politicamente, a classe média costuma ser objeto do ódio da esquerda e de defesa interesseira pela direita. Mas, sociologicamente, aversão ou bajulação em nada ajudam a esclarecer esse conceito, sempre tão complicado.

Em um trecho do ensaio de crítica literária “Ao vencedor as batatas”, Roberto Schwarz dá algumas pistas para compreender o lugar da classe média na formação da estrutura de classes brasileira:

Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o ‘homem livre’, na verdade dependente (...). Nem proprietários nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. (...) O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em consequência, por este mesmo mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada pela força. (...) O favor é a nossa mediação quase universal – e sendo mais simpático do que o nexo escravista, a outra relação que a colônia nos legara, é compreensível que os escritores tenham baseado nele a sua interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a violência, que sempre reinou na esfera da produção.

De fato, grande parte de nossa classe média mostra-se prisioneira dessa mistura de favor e violência, herança escravista e produção sob coação. Uma síntese profundamente conservadora e antipopular.

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