domingo, 21 de junho de 2015

Poços para sepultar a infância

No Congresso, avança a proposta de redução da maioridade penal. Agora, com a colaboração do governo de plantão, que defende proposta no mesmo sentido, concebida juntamente com a oposição conservadora.

Enquanto isso, em 20/06, no Globo, reportagem de Renata Mariz revelava o estado calamitoso das unidades de internação de crianças e adolescentes pelo país. Muitas delas com superlotação e misturando menores com portes físicos e tipos de infração diferentes, o que é proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Na mesma edição do Globo,
Raphael Kapa publicou matéria sobre a descoberta de 450 ossadas de bebês enterradas há milhares de anos em Atenas. Estavam em um poço, muitas delas com sinais de violência, inclusive sexual.

Segundo Susan Rotroff, professora da Universidade de Washington e uma das responsáveis pelo estudo das ossadas, a mortalidade materna era muito grande na antiguidade grega. Por isso, evitava-se o apego exagerado aos pequenos. Além disso, crianças não saudáveis eram um grande fardo, sendo muitas vezes abandonadas. Na verdade, diz ela:

... a infância não era algo tão idealizado quanto é em nossa sociedade. A pesquisa também mostra a relação desses atenienses não só com a morte, mas com o próprio espaço público. Esse poço estava no centro cívico, perto de residências e do comércio. Isso mostra que essas crianças não eram vistas como pessoas, propriamente, uma vez que não passaram pelos mecanismos de integração à família e à cidade.

O trecho acima não está distante de valer também para uma sociedade cujos setores dirigentes buscam condenar grande parte de sua infância a sepultamentos muito semelhantes. Os poços, nós já temos.

Leia também: Redução da maioridade e voto aos 16 anos

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