quinta-feira, 13 de abril de 2017

Três versões da traição

Há um conto de Jorge Luis Borges em que Judas é elevado à condição de mártir. Segundo a hipótese fictícia do grande escritor argentino, o mais odiado dos personagens bíblicos sacrificou sua honra e o reino dos céus por uma causa maior. Sem seu ato vergonhoso, não teria ocorrido o terrível sacrifício que redimiu a humanidade e mudou a história do mundo.

Segundo o conto, Judas teria intuído:

...a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator. (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus.

Claro que tudo isso não passa da genial imaginação de Borges expondo as contradições envolvendo valores humanos e divinos. Mas em tempos prenhes de delações, esse jogo espelhado parece forçar sua aparição nos jornais.

É o caso da matéria de Marina Dias publicada na Folha, em 13/04. O título diz que “Temer, Lula e FHC articulam pacto por sobrevivência política em 2018”. A aproximação dos três estaria sendo intermediada por Gilmar Mendes e Nelson Jobim. A principal motivação, diminuir os estragos causados pela avalanche de denúncias de corrupção a envolver nomes graúdos dos partidos que lideram.

Onde Borges encaixaria seu Judas nesse cenário confuso até para ele? Difícil saber. De qualquer maneira, o título do conto é “As Três Versões de Judas”.

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