terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Telefone para Neguinho da Beija-Flor

Causaram escândalo as recentes declarações de Neguinho da Beija-Flor sobre a origem dos financiamentos dos desfiles das escolas de samba. Segundo o sambista, “o maior espetáculo audiovisual do planeta” só é possível graças à contravenção.

As ligações do samba com atividades ilegais vêm de longa data. Para começar, seus praticantes eram considerados culpados pelo delito de vadiagem. No início do século 20, por exemplo, o sambista João da Baiana costumava ter seu pandeiro frequentemente apreendido pela polícia.

Um desses confiscos o impediu de comparecer a uma festa na casa do senador Pinheiro Machado. Diante disso, o poderoso político presenteou o sambista com um novo pandeiro. O instrumento trazia a assinatura de Machado, garantindo a seu proprietário livre circulação pela capital carioca.

A contravenção aparece também no primeiro samba gravado no Brasil. Sua versão mais popular denunciava os laços íntimos entre contraventores e poder público:

 
O chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca/ Tem uma roleta/ Para se jogar
 
Os versos atribuídos a Donga e Mauro de Almeida faziam referência a Aurelino Leal, chefe da polícia carioca nos anos 1930. No combate aos jogos de azar, Leal tinha fama de alertar os contraventores contra os quais ele próprio ordenava diligências.

Há muito tempo, fazer samba já não é delito. Mas permanece sendo coisa de preto e pobre. Como tal, continua a ser empurrado para a ilegalidade. O poder público despeja dinheiro nos desfiles sem licitação ou transparência enquanto fecha os olhos para patrocínios ilícitos ou imorais.

O mais provável é que Neguinho da Beija-Flor também receba muitas ligações dos atuais “chefes da polícia”.

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2 comentários:

  1. Olá Sérgio! Como sempre bons textos e excelentes analogias sobre cada assunto. Mas gostaria de saber sua opinião da qual não ficou claro sobre parte do financiamento da escola de samba que veio de forma suspeita e de um ditador onde sua nação passa por muitos problemas sociais. Claro que temos vagas informações mas é o que chega para nós. Parabéns e sempre é bom ler seus textos.

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  2. Oi, Celsão. Obrigado pelos comentários. O texto acabou abordando apenas a declaração do Neguinho sobre a contravenção e a polêmica que provocou, deixando de lado o tal financiamento da escola pelo governo da Guiné Equatorial. É que me parece que uma coisa e outra são diferentes, apesar da imoralidade e possível ilegalidade envolvendo ambas. O fato é que já há outros textos muito bons sobre o episódio envolvendo o país africano circulado pela internete, inclusive fazendo a relação da histórica colaboração da Beija-Flor com a ditadura militar brasileira.
    Abração!

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