segunda-feira, 9 de março de 2015

Abaixo do Equador, almas cheias em corpos quebrados

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador”, diz o famoso frevo de Chico Buarque. Mas a origem da expressão não se refere a divertimentos eróticos. Longe disso.

Em meados do século 16, as potências europeias chegaram a um acordo para diminuir a ferocidade de suas disputas mútuas. Traçaram o que foi chamado de “linhas da amizade”, que determinavam que no velho continente seriam respeitados certos limites para que as agressões mútuas não caíssem ao nível da barbárie.

Mas fora destas linhas, ou seja, no mundo colonial, tudo seria permitido. E para que a harmonia fosse completa, o papa Paulo III publicou a bula “Sublimis Deus”, em 1537, decretando que os habitantes do hemisfério sul tinham alma “nuliius”. Ou seja, suas almas eram tão vazias como as terras recém “descobertas”. Umas e outras podendo ser tomadas, saqueadas, exploradas. 

As tais limitações amistosas chegavam também aos súditos que, nas colônias, asseguravam a exploração e o saque de povos e recursos naturais. A eles tudo era permitido, sem que maiores responsabilidades caíssem sobre seus atos. Estuprar, matar, torturar, escravizar, desde que somente indígenas e pretos.

Não à toa, Locke inicia seu tratado “Sobre o governo civil”, dizendo que "No princípio todo o mundo foi América". Ou seja, tudo era caos e selvageria.

Muito tempo depois do fim da colonização, as “linhas da amizade” continuam a determinar quem pode ser vítima da barbárie ocidental. Ainda hoje, quebram-se os corpos daqueles cuja pele não só tem a cor errada, mas também cometeram o pecado de abrigar almas que se encheram de revolta.

Leia também:
Resistência popular: cinco séculos, ontem e anteontem

Nenhum comentário:

Postar um comentário