quinta-feira, 4 de maio de 2017

Muito mais que cem anos de solidão

O lendário livro “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, está completando meio século. Para muitos, a obra inaugurou o realismo mágico. Um estilo artístico que apresenta elementos fantasiosos como parte do cotidiano.

Apesar disso, uma das passagens menos imaginárias e marcantes do romance refere-se a um massacre ocorrido em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu o autor.

Era dezembro de 1928 e os trabalhadores da United Fruit haviam entrado em greve. A poderosa multinacional americana não podia admitir tamanha ousadia. Muitos dos grevistas foram fuzilados pelo exército. O total de mortos nunca foi esclarecido, mas há quem diga que pode ter chegado a cinco mil.

O livro descreve a cena deste modo:

Estavam encurralados, girando num torvelinho gigantesco que pouco a pouco se reduzia ao seu epicentro, porque os seus bordos iam sendo sistematicamente recortados em círculo, como descascando uma cebola, pela tesoura insaciável e metódica da metralha.

O único sobrevivente é o personagem José Arcadio Segundo, que, na confusão, conseguiu fugir. Ao voltar mais tarde, fica surpreso quando descobre que ninguém sabia do massacre. Tudo o que lhe dizem é: “Em Macondo não aconteceu nada, nem está acontecendo nem acontecerá nunca. É um povoado feliz.”

No livro, Macondo representa Aracataca. Mas na vida real, o pequeno povoado simboliza muitos outros lugares pelo mundo. Um mundo onde o poder é exercido de modo cada vez mais solitário pelo grande capital, enquanto vai multiplicando muitas vezes o número de suas vítimas. 

Não à toa, Garcia Márquez costumava dizer: “Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade”.

Um comentário:

  1. Lindo, reli recentemente. Da 1a vez que li, lembrava fortemente do personagem que as borboletas o acompanhavam. Na releitura, foi a greve. Forte, linda, impressionante.

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