quarta-feira, 31 de maio de 2017

A esquerda precisa quebrar alguns espelhos

O inglês David Harvey é um dos intelectuais marxistas mais influentes da atualidade. Em entrevista publicada pelo portal "Outras Palavras", em 30/05, ele pergunta:

...o que faz com que cada modo de produção dominante, com sua configuração política particular, crie um modo de oposição que se constitui em seu reflexo? À época da organização fordista da produção, o reflexo era um movimento sindical centralizado e partidos políticos baseados no centralismo democrático. À época neoliberal, a organização da produção para uma acumulação flexível produziu uma esquerda que é também, na verdade, seu reflexo: trabalho em redes decentralizadas, não hierarquizadas. Penso que é muito interessante. E até certo ponto, o reflexo do espelho valida o que tentava destruir. O movimento sindical, assim, sustentou o fordismo.

Penso que neste momento muita gente à esquerda, sendo muitos autônomos e anarquistas, reforçam na verdade o neoliberalismo em seu jogo final. Muita gente de esquerda não quer saber dessa afirmação. Mas a pergunta que se coloca é, evidentemente: haverá um meio de se organizar que não seja no espelho do neoliberalismo? Podemos quebrar esse espelho e organizar qualquer outra coisa, que não jogue o jogo do neoliberalismo?

Realmente, o reflexo do fordismo nos deu muitas organizações de esquerda burocratizadas e hierarquizadas segundo o autoritarismo das fábricas.

Já na atual configuração neoliberal, o maior risco é a dispersão. Afinal, à frouxidão e flexibilidade de movimentos do capital a que assistimos corresponde um aparato de exploração e repressão dos mais injustos, centralizados e antidemocráticos.

Quebrar esse tipo de espelho deve fazer parte das tarefas das forças revolucionárias. Dá azar, mas só para nossos inimigos.

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