segunda-feira, 15 de maio de 2017

O racismo amassado entre os dentes

“Eu sei quando maio começa, porque todo mundo quer saber do povo negro”, diz Flávia Oliveira, em sua coluna no Globo de 11/05. “É o mês da abolição e todo mundo quer debater o racismo”, afirma a jornalista antes de enfileirar mais estatísticas demonstrando o cruel racismo brasileiro que grande parte do País teima em não reconhecer.

E estatísticas também são parte importante de um dos espetáculos de Marcelino Freire em cartaz no Sesc Copacabana. Trata-se de “Contos Negreiros do Brasil”, que junto com “Um Sol de Muito Tempo” e “Balé Ralé” formam a ocupação “Palavra Amassada Entre Os Dentes”, que homenageia o escritor pernambucano.

A exposição dos números fica por conta do sociólogo e filósofo Rodrigo França, acompanhada das ótimas interpretações de Li Borges e Milton Filho. A direção é de Fernando Philbert.

“Contos Negreiros do Brasil” é o nome de um livro de Freire. Na introdução da obra, o jornalista Xico Sá afirma que o autor:

...escreve como quem pisa no massapê, chão de barro negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos diminutivos dobrados nas voltas da língua...

As estatísticas pela milésima vez confirmam a violência de todos os tipos que desaba sobre a população preta e não branca há séculos. São dados que muito raramente apresentam alguma melhora. Mesmo assim, não despertam mais que algumas palavras de lamento passageiro, murmuradas por grande mídia e governantes. Exceções como Flávia Oliveira só confirmam a regra.

Por enquanto, toda essa injustiça continua a ser remoída apenas entre os dentes. Até quando, não se sabe.

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