11 de julho de 2018

Os zaps e tuítes e seus antepassados

No livro “O que é fascismo? – e outros ensaios”, de George Orwell, aparece um texto publicado por ele no jornal “Tribune”, em 08/12/1944. Um trecho diz o seguinte:

Durante anos no passado fui um laborioso colecionador de panfletos, e um leitor razoavelmente constante de literatura política de todos os tipos. O que me impressiona cada vez mais – e impressiona muitas outras pessoas também – é a extraordinária depravação e desonestidade da controvérsia política em nossa época. Não estou meramente afirmando que controvérsias são acrimoniosas. Elas têm de ser quando tratam de assuntos sérios. Estou dizendo que quase ninguém parece achar que um oponente merece ser ouvido com atenção, ou que a verdade objetiva importa tanto quanto você ser capaz de marcar ponto num debate. Quando olho para minha coleção de panfletos – conservadores, comunistas, católicos, trotskistas, pacifistas, anarquistas ou sabe-se lá o que mais –, a mim parece que quase todos têm a mesma atmosfera mental, embora os pontos de ênfase variem. Ninguém está em busca da verdade, todos estão apresentando um “caso” com total desconsideração à imparcialidade ou à exatidão, e os fatos mais evidentemente óbvios podem ser ignorados por quem não os quer ver. Em quase todos eles podem-se encontrar os mesmos truques de propaganda. Seria necessário preencher muitas páginas deste papel apenas para classificá-los, mas chamo aqui a atenção para um hábito muito disseminado e controverso – o de desconsiderar os motivos do oponente.

Panfletos estão meio fora de moda. Mas é só trocá-los por “zaps” ou “tuítes” no texto acima para atualizá-lo sem grandes problemas. Com o agravante de terem um alcance muito maior, hoje.

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