6 de agosto de 2018

Marx, inteligência artificial e polinização humana

O trabalho da abelha não é apenas a produção de mel e cera. Seu verdadeiro trabalho ecológico e reprodutor da vida é a polinização, infinitamente mais produtivo.

Ao retirar os favos de mel preenchidos pelo trabalho reprodutor das abelhas, o apicultor se apropria do mel e da cera e as obriga a trabalharem além do que fariam sem a sua intervenção. O trabalho de polinização é ignorado pelo apicultor, mas fundamental para manter o ciclo natural que torna possível sua atividade.

A atividade humana é muito mais do que o trabalho remunerado. Abrange, por exemplo, criação, educação, aprendizagem da linguagem, da escrita, produção da língua, dos símbolos, da cultura, trabalho voluntário, trabalho doméstico...

Conforme o capitalismo se desenvolve, essa “polinização humana” também vai sofrendo uma predação contínua. Na época da inteligência artificial, do digital e da ciência e suas aplicações, a captação do valor começa a se dar também pelas plataformas interativas digitais e pelos aplicativos em rede. São novas formas de aproveitar essa polinização humana, a partir de um imenso volume de interações.

Esse novo e mais esperto tipo de apicultor atende pelos nomes de Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft, IBM, Twitter, Instagram e seus equivalentes chineses.

Tudo isso é um resumo da elaboração do economista e sociólogo francês Yann Moulier Boutang. Sem dúvida, uma hipótese bastante criativa sobre o funcionamento atual do capitalismo. Mas sua fonte de inspiração é de 1857. Trata-se do “Fragmento sobre as máquinas”, retirado dos chamados “Grundrisse”, uma espécie de rascunho de “O Capital”.

E Marx ainda vivia dizendo que não queria ser chamado de profeta. Vai se f%*#$@!

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