terça-feira, 19 de agosto de 2014

Desertos de esperança e decência

Ainda jovem, o soldado Drogo é enviado para uma distante fortaleza, junto a um território de povos bárbaros. É de lá que a qualquer momento deve partir um ataque, garantem seus superiores. Mas o tempo se arrasta e o combate com as glórias que certamente traria não acontece.

Quando o inimigo finalmente ameaça atacar, Drogo está velho demais para combater. É dispensado e deixa o forte. Morre a caminho de sua terra natal.

Esta é a triste história do livro “Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati. A obra se presta a diversas interpretações. Uma delas, certamente, diz respeito às fortalezas que se multiplicam pelo mundo. Sempre sob o pretexto de prevenir ataques de “bárbaros”.

São as muralhas com que Israel cerca e asfixia os palestinos. O muro que impede a entrada de mexicanos nos Estados Unidos. As fronteiras que isolam a Europa próspera de europeus, africanos, asiáticos e outros desafortunados.

Liberdade de circulação, só para as mercadorias. Principalmente, aquelas feitas nos países periféricos pelos pobres que não podem seguir o mesmo caminho que o produto de seu trabalho.

Os “bárbaros”, tão temidos, não passam de maltrapilhos, como mostram as recentes ondas de africanos chegando a Itália e Espanha, implorando que alguém explore seu trabalho.

Essas hordas de pedintes são fabricadas aos montes pela desigualdade capitalista, que transforma grande parte do mundo em desertos de esperança e decência.

Será assim enquanto a grande maioria continuar reduzida ao papel imposto a Drogo. Aguardando seu fim desonroso e sem glórias. Inconsciente de que os verdadeiros bárbaros estão ao seu redor, dentro das fortalezas, e são seus próprios comandantes.

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