terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Para nos livrar do peso das raças

 Surendra disse, então:

- Não gosto de pretos, Kindzu.
- Como? Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
- Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.

O diálogo acima é do livro “Terra Sonâmbula” e está na peça “Os cadernos de Kindzu”, baseada na obra de Mia Couto. A montagem do Amok Teatro faz justiça ao belo texto do escritor moçambicano. Mas também chama a atenção a espetacular “cenografia musical” proporcionada por inúmeros instrumentos afro-orientais brilhantemente tocados por todo o elenco.

A trama gira em torno do jovem Kindzu, apanhado em meio à guerra civil que castigou Moçambique após a libertação do país do domínio português. Mia Couto e o Amok mostram que a libertação colonial foi só um primeiro passo para a verdadeira libertação dos povos africanos.

É por isso que Surendra, antes do diálogo acima, já havia dito a Kindzu que seria “preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça."

É contra essa situação que a companhia teatral dirigida por Ana Teixeira e Stephane Brodt vem atuando, com seu trabalho ligado às tradições africanas iniciado com outra montagem maravilhosa. Trata-se de “Salina – A Última vértebra”, encenada em 2015.

O espetáculo só fica em cartaz até 18/12 no CCBB do Rio de Janeiro. E, infelizmente, ainda não há notícias de novas apresentações para o ano que vem.

Que possamos continuar contando com a arte do Amok para alcançar um futuro livre do peso do racismo.

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