7 de fevereiro de 2018

A conquista pelo estupro

Moema - Bernardelli
As mitocôndrias são elementos essenciais de grande parte de nossas células. E na grande maioria dos animais, apenas o DNA mitocondrial materno (mtDNA) é passado de geração para geração. Algo que jamais acontece com o DNA mitocondrial paterno.

Isso significa que o mtDNA de toda uma determinada população é derivado de uma única ancestral comum. O equivalente genético para determinar linhagens paternas é o cromossomo Y, exclusivamente masculino.

Essa pequena introdução serve apenas para destacar um trecho do livro “1499: O Brasil antes de Cabral”, de Reinaldo José Lopes. Segundo ele, as mais recentes pesquisas genéticas utilizando o mtDNA descobriram que “entre 20% e 30% dos brasileiros vivos hoje descendem de uma tataravó índia”. Mas:

Sabe quantos brasileiros, de qualquer cor de pele, carregam hoje um cromossomo Y indígena? Quase nenhum — com exceção dos que ainda se identificam como membros de uma tribo ameríndia, obviamente. Esse tipo de assimetria é típico de populações conquistadas em todos os tempos e em qualquer lugar do mundo, infelizmente. Os israelitas da Bíblia, os macedônios de Alexandre, o Grande, os mongóis de Genghis Khan e, óbvio, os portugueses de Martim Afonso de Souza sempre seguiram basicamente o mesmo figurino: numa operação de conquista, os homens dos grupos vencidos são mortos ou escravizados, e as mulheres viram concubinas. Nenhum outro modelo é capaz de explicar o tamanho da diferença entre o que enxergamos nas duas rotas paralelas, a do mtDNA e a do cromossomo Y.

Ou seja, por séculos, grande parte da invasão europeia das terras brasileiras foi baseada no estupro de mulheres indígenas. E não apenas delas, claro.

Leia também: Muito a aprender com os mestres indígenas

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