6 de fevereiro de 2018

Apetites de um consumo sem espírito

De volta ao artigo que Anthony Elliott publicou na Folha em 31/12/2017. Nele, o professor de sociologia da Universidade South Australia e da Universidade Keio, no Japão, discute um novo tipo de individualismo.

Mas um aspecto lateral abordado pelo texto é o que ele chamou de “consumo desigual”. Um exemplo:

...a ONU apontou num estudo da década de 1990 que prover educação básica para todos os cidadãos dos países em desenvolvimento custaria em torno de US$ 6 bilhões adicionais ao ano, enquanto os EUA sozinhos já gastavam espantosos US$ 8 bilhões por ano com cosméticos.

Mais “dados chocantes sobre gastos anuais (segundo o mesmo documento de 1998)”:

- US$ 11 bilhões com sorvete na Europa;

- US$ 17 bilhões com comida para animais de estimação na Europa e nos EUA;

- US$ 50 bilhões com cigarros na Europa;

- US$ 105 bilhões com bebidas alcoólicas na Europa;

- US$ 400 bilhões com narcóticos em todo o mundo.

Os números refletem não só uma obsessão cultural com consumo, prazer e hedonismo mas também apontam para uma ênfase individualista na satisfação dos desejos.

Em “O Capital”, Marx transcreve a seguinte frase de Nicholas Barbon, da obra “A Discourse on coining the new Money lighter”, de 1696:

O desejo implica a necessidade; é o apetite do espírito, que lhe é tão natural quanto a fome para o corpo (...) A maior parte [das coisas] retira seu valor do fato de satisfazerem as necessidades do espírito.

Caberia perguntar que espírito regeria apetites como os descritos por Elliott, não fosse o fato de que provavelmente já não lhes reste espírito algum.

3 comentários:

  1. Sergio, eu retiraria na comparação de gastos a dos animais de estimação. Não sou militante de nenhum movimento de defesa dos animais e nem tenho sequer mais um em casa, mas penso que existem muitas pessoas interessantes, com pensamento socialista, inclusive, que defendem a vida, nas quais a dos animais de estimação estão inclusos. A esquerda já usou muito este discurso de colocar os animais de estimação como prazeres supérfluos humanos, acho bom ter cuidado. Tá, os dados colhidos e a comparação não são suas, mas deixo a ressalva.
    Quanto aos apetites do espírito - mais uma questão complicada para o campo de esquerda - devemos ter os mesmos cuidados. Achar um absurdo o que se gasta com drogas, álcool ou cosméticos em comparação com o que não se gasta com educação está correto; agora, achar que não existe mais espírito algum nestes desejos, não vejo bem assim. Tem também a questão da ênfase individualista...
    É, temas desta natureza são complicados em todos os sentidos, e sei que uma pílula não resolve, e sei também que não é pretensão sua. Acredito que nem a quantidade de todas as drogas legais vendidas em farmácias do mundo resolveriam. Só achei que nesta pílula tem comparação e afirmações complexas que podem levar a conclusões erradas, até mesmo do que acho que pensa. Pela brevidade dos parágrafos posso também não ter entendido bem algumas coisas. Mas me esforcei, li várias vezes. Abraço.

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    1. Sim, Marião. Tem toda razão. Ficou parecendo meio moralista. O quer faltou dizer é que, na verdade, esse consumo é aí, em geral, é consumismo, este sim um consumo sem espírito. Não é o amor pelos animais, as necessárias experiências de alteração mental, os cuidados com o corpo, em si que são sem espírito. Mas a exploração dessas dimensões humanas pelo mercado. É a indústria do pet-shop, das bebidas e cigarro, etc. Você foi muito preciso em suas observações. Pra isso que as pílulas deveriam servir. Infelizmente, são raras as pessoas que consigo provocar com elas. Você felizmente tá aí, afiado como sempre. Valeu!

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    2. Opa, também acho e entendo o propósito das pilulas. Obrigado pelo reconhecimento da contribuição que espera que as pessoas possam dar lendo as pílulas. Abraço.

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