22 de fevereiro de 2018

A “terra preta” do índio e a terra vermelha do agronegócio

Mais informações interessantes do livro “1499: O Brasil antes de Cabral”, de Reinaldo José Lopes.

Desta vez, sobre a chamada “terra preta de índio”. São “camadas muito escuras de solo, às vezes com mais de 1 metro de profundidade, com quantidades relativamente elevadas de matéria orgânica”, explica Lopes.

É um tipo de solo muito mais fértil do que quase todos os demais da Amazônia. Alguns de seus nutrientes possuem níveis várias vezes superiores aos dos solos vizinhos. E é capaz de “segurar” com eficiência esses nutrientes por séculos e até milênios.

A terra preta está presente em quase toda a calha principal do rio Amazonas, na ilha de Marajó, em Rondônia, no Acre, no Alto Xingu e nas regiões amazônicas de Guianas, Peru, Colômbia.

São 12,6 mil quilômetros quadrados (dez vezes a área do município de São Paulo).

A terra preta é evidência importante de que “partes consideráveis da mata amazônica “— incluindo aquelas que nunca foram tocadas por uma motosserra do século XXI — são ‘culturais’ ou, se preferirmos, antropogênicas”. Muito provavelmente, produto do “lixo dos assentamentos” indígenas acumulado desde alguns séculos Antes de Cristo.

Teria, portanto, uma origem não intencional, cujo potencial de uso para lavoura foi percebido pelas populações amazônicas, muito antes do início da invasão europeia.

“Experimentos piloto sugerem que essa ‘tecnologia arqueológica’ poderia ser ressuscitada e ajudar a agricultura familiar a se tornar mais produtiva e sustentável”, afirma Lopes.

Mas para isso, podemos concluir, precisaríamos abandonar as atuais monoculturas destrutivas controladas pelos gigantes do agronegócio. Um tipo de exploração baseada na terra vermelha, tingida pelo sangue de indígenas e trabalhadores rurais.

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