16 de fevereiro de 2018

Seja consciente, não consuma açúcar escravo

Publicado em 1944 por Eric Williams, “Capitalismo e escravidão” foi o primeiro livro a demonstrar a profunda vinculação entre o nascimento do capitalismo industrial na Europa e a escravização negra nas Américas.

Em um trecho da obra, o autor descreve uma campanha envolvendo o que hoje chamaríamos de “consumo consciente”.

Por um cálculo matemático feito na época, se uma família média inglesa deixasse de consumir açúcar por 21 meses, um negro seria poupado de escravização ou morte.

Para muitos abolicionistas britânicos, o consumidor de açúcar era "o principal motor, a grande causa de toda a horrível injustiça" envolvida na escravidão.

A solução? Substituir o açúcar das Índias Ocidentais pelo que vinha das Índias Orientais. Ou seja, substituir o consumo do produto americano pelo indiano.

Havia até um folheto intitulado "Queixa do escravo negro aos amigos da humanidade". Nele, um negro implorava:

Massa, você que é amigo da liberdade, tenha pena do pobre negro. Eu imploro, compre o açúcar do Oriente, não compre açúcar escravo.

Segundo os promotores da campanha, agindo desse modo, os consumidores estariam minando o sistema escravista da maneira mais segura, fácil e eficaz.

Mas só faltava uma coisa: abolir a escravidão na Índia. E o máximo que a dominação britânica conseguiu, naquele momento, foi propor uma legislação para "melhorar" a escravidão naqueles territórios.

O que realmente estava por trás do apoio abolicionista à produção das Índias Orientais não era apenas a desumanidade da escravidão, mas a crescente falta de rentabilidade do monopólio açucareiro nas Américas.

Se o consumo consciente não abalou o capitalismo quando envolvia o comércio legalizado de escravos, muito menos agora.

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