terça-feira, 13 de setembro de 2016

Paraolimpíadas e esperanças mutiladas

Em 11/09, o atleta argelino Abdellatif Baka venceu os 1.500 metros em prova para deficientes visuais, sem guia. Aconteceu nas Paraolimpíadas 2016, mas a marca também lhe daria o ouro nas Olimpíadas.

Já o alemão Markus Rehm é campeão no salto em distância. Usando prótese em uma das pernas, ele quebrou o recorde mundial chegando aos 8,40 metros. A marca ultrapassa em 2 cm a do vencedor das Olimpíadas 2016.

Essas façanhas permitiriam esperar para breve a participação de paratletas nas Olimpíadas. Mas somente no primeiro caso, que não envolve próteses. Sobre estas últimas pesam suspeitas de que favoreçam artificialmente seu portador. Principalmente, as eficientes lâminas de fibra de carbono que substituem pernas amputadas.

Por enquanto, a Federação Internacional de Atletismo resolveu a polêmica decidindo que cabe ao paratleta provar a igualdade de condições para concorrer a uma vaga olímpica. No caso de Rehm, avaliações feitas por pesquisadores na Alemanha, Japão e Estados Unidos indicaram que a prótese ajuda no salto, mas atrapalha na corrida.

Ainda assim, o debate está longe de acabar.

De qualquer maneira, não seria difícil que, em breve, a tecnologia das próteses leve o desempenho paratlético a níveis inimagináveis. Neste caso, grandes empresas do ramo podem transformar a paraolimpíada em vitrine para a promoção de tecnologia biônica.

Também é possível que algumas pessoas recorram a amputações voluntárias para garantir patrocínios esportivos graúdos ou acrescentar a suas vantagens econômicas superpoderes físicos. Não se pode descartar, ainda, que essa tecnologia seja usada para formar exércitos biônicos.

Enfim, seria mais uma possibilidade de alívio para dramas humanos mutilada pela lógica do lucro e do poder.

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3 comentários:

  1. Eu não tenho simpatias por jogos internacionais. Acho que não promovem confraternização, mas sim estimulam disputas individualistas, narcisismos nacionalistas e étnicos. Também fazem o papel do circo romano, de distrair as massas.
    Meu sentimento já é diferente quanto aos jogos paralimpicos, que acho que dão visibilidade à questão dos deficientes, estimulam a que pratiquem esportes e que tenham prazer na vida.
    Muito me incomodou a falta de cobertura da mídia. A festa de abertura foi muito bonita, mas somente uma transmissora que transmitiu. Ainda hoje é difícil achar gravação desta festa na internet (completa eu não achei, só com cortes de partes relevantes). Vários jogos também são difíceis de serem assistidos. Há no youtube um protesto de um deficiente a este respeito ( https://www.youtube.com/watch?v=d3GTD40giA0 ).

    Além de todo o ônus financeiro e social que foi para a sociedade, nem sequer este aspecto, que poderia ser positivo, foi tratado de maneira adequada. Este é o legado dos jogos...

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  2. Sérgio e Marcelo, vocês trazem reflexões interessantes. A paraolimpíada(gosto mais deste termo)é a antítese dos ideais capitalista. De modo geral, as suas modalidades esportivas vão ao encontro do espírito esportivo, não do capitalismo. Por estarmos diante de pessoas que fogem ao paradigma esperado pela sociedade do espetáculo, do belo, dos ideais olímpicos(mais alto, mais forte, mais veloz), as pessoas com deficiência freiam (literalmente) o convencional, o valorizado socialmente. Na verdade, ficaria muito feio(politicamente incorreto) se não houvesse uma TV (ainda que seja somente uma), que transmitisse os jogos. Os patrocinadores, a rigor, não veem com bons olhos ficar perdendo tempo/dinheiro com esses jogos. Vejam que os jogos são no Rio. Quando ocorrerem fora do Brasil, o desleixo é maior. A grita, a crítica, devem permanecer vivas continuamente. Caso contrário, o capital(mais uma vez)vence/rá. Quanto às próteses, Sergio, percebemos que alguns paraatletas estavam com uma tecnologia bem inferior ao colega, que provavelmente teve investimento maior. Nesse sentido, acaba tendo vantagens durante as provas. O lado positivo, é que a população, o senso comum, o povo, são sensíveis, admiram os feitos de nossos paraatletas, de nossa população com deficiência. De verdade. Há muito o que mudar. Desde a questão do preconceito, passando por mais investimento(para todos) e visibilidade, até alteração/mudanças de algumas regras. Há que ampliar e, mais importante, qualificar o debate.

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  3. Obrigado pelos comentários, Marcelo e Romildo. O importante é seguir problematizando criticamente.
    Abraço

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