quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O caso Grêmio: nosso racismo exige discrição

 
    Latuff
De forma inédita, o Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil pelos atos racistas de alguns de seus torcedores. Mas nem deu tempo de comemorar a decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Logo surgiram evidências de que o mesmo crime foi cometido por um dos membros do próprio tribunal.

Trata-se de Ricardo Graiche, que teria postado fotos racistas nas redes virtuais, em 2012. Uma delas mostra um bebê negro enrolado em um rótulo de Pepsi. Uma estupidez das mais repugnantes.

Mas o episódio pode ajudar a explicar a decisão do STJD. Apesar de justa, ela pode ser interpretada como uma forma de isolar o caso. A pressa e o rigor do tribunal, talvez, tenham menos a ver com o combate ao racismo que seu ocultamento. Prontamente condenadas, as atitudes seriam apenas manchas em nossa “democracia racial”.

Essa ideologia racial branca afirma que os negros sofrem constrangimentos por sua condição social e não devido à cor de sua pele. Assim, um negro rico sofreria menos discriminação que um pobre. A ascensão social seria suficiente para lhe garantir tratamento respeitoso.

Ou seja, o discurso dominante prefere admitir a existência de injustiças sociais que as de caráter racial. Afinal, temos uma das maiores populações negras do planeta. Seria perigoso uni-la em torno de algo que a ofende em seu conjunto. Melhor que seja convencida de que as condições sociais muito piores em que vive são resultado de situações individuais.

Essa lógica explicaria por que um juiz condena o racismo berrado nos estádios, enquanto discretamente alimenta o seu. Silencioso e letal como um bicho peçonhento.

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