quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pesquisa explica mais o governo que os governados

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acaba de divulgar dados da pesquisa “Valores e Estrutura Social no Brasil”. O estudo tenta descobrir os valores que regem o comportamento e as atitudes dos brasileiros.

Um estudo desse tipo está sujeito muitas distorções. Principalmente, em uma pesquisa quantitativa. Mesmo assim, os dados dão algumas pistas importantes.

Segundo as conclusões inciais da pesquisa, “62% dos brasileiros aderem a posições mais igualitárias e progressistas, e 32%, a posições sociais mais conservadoras”. Mas o conservadorismo é muito maior em certas questões.

O direito ao aborto, por exemplo, é aceito por apenas 40% dos entrevistados. Somente 23% admitem relações homoafetivas, como namoro ou casamento, no círculo familiar. Em relação ao estupro, mais de 30% concordam em responsabilizar parcialmente a mulher caso ela use “roupas provocantes”.

Mas há uma importante evidência externa aos dados. No texto de apresentação da pesquisa, Dilma Roussef diz querer “falar a essa nova classe média e também à tradicional, e faremos isso falando de valores caros à sociedade”. Ou seja, o governo escolheu a “classe média” como alvo de suas políticas.

As “classes médias” não são necessariamente conservadoras. Mas tendem fortemente a sê-lo. Por outro lado, seria muito mais adequado considerar a chamada “classe média” como um setor dos trabalhadores. E como tal ser tratada.

Ao priorizar as camadas sociais intermediárias, o governo concentra suas ações nos elementos menos dinâmicos da sociedade. Despreza o potencial transformador dos explorados. Deixa em paz aqueles que concentram o patrimônio e são responsáveis pela enorme desigualdade social. 

Aí, a pesquisa acaba explicando mais o governo do que seus governados.

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