segunda-feira, 26 de março de 2012

Rio+20: uma esquerda marrom e grosseira

O maior evento ambiental do planeta vai acontecer no Rio de Janeiro. Uma cidade que continua incapaz de implantar um sistema de coleta seletiva de lixo. Mas esta é só uma das contradições a envolver o evento. O país que vai sediá-lo é governado por uma esquerda que despreza as questões ambientais.

O governo do PT lidera o que Eduardo Gudynas considera ser uma esquerda que passou de "vermelha" a "marrom". Em artigo publicado no site “América Latina en Movimiento”, o sociólogo uruguaio refere-se à cor que resulta do desmatamento de grandes áreas rurais. Consequência do chamado “neodesenvolvimentismo”, que valoriza a produção acima de tudo.

O alvo de Gudynas é a esquerda que ocupa os governos. Em especial, na América Latina, em que rios, florestas, aldeias, quilombos, povos indígenas vêm sendo atropelados por megaempreendimentos. Grande parte deles financiado por capital vindo do Brasil.

O pior é que alguns dos defensores desse modelo se dizem marxistas. No entanto, há elementos suficientes nessa tradição para desautorizá-los. Citemos uma pequena passagem que ajuda a demonstrar isso. Trata-se de um trecho de “A humanização do macaco pelo trabalho”, escrito por Engels em 1875:
A cada uma dessas vitórias [sobre a natureza], ela exerce a sua vingança. Cada uma delas, na verdade, produz, em primeiro lugar, certas consequências com que podemos contar; mas em segundo e terceiro lugares, produz outras muito diferentes, não previstas, que quase sempre anulam essas primeiras consequências. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e noutras partes destruíram os bosques, para obter terra arável, não podiam imaginar que, dessa forma, estavam dando origem à atual desolação dessas terras ao despojá-las de seus bosques, isto é, dos centros de captação e acumulação de umidade.
Como se vê, os homens da Antiguidade ainda tinham uma desculpa. Pareciam não saber o que faziam. Não é o que acontece em nosso atual momento histórico. Menos ainda quanto aos que se dizem de esquerda. Nestes, a ignorância é de outro tipo. É grosseira.

Leia o artigo de Eduardo Gudynas, clicando aqui.

Leia também: Rio+20: biodiversidade e mudanças climáticas

2 comentários:

  1. O texto do Gudynas cria um termo bom para denominar esses governos da AL, mas cai num erro preocupante ao considera-los de esquerda ou, termo ainda pior nesse caso, progressistas. A questão ambiental evidencia uma caracteristica proghramatica desse governo que pode ser observada em diversos outros aspectos do mesmo: eles não rompem com a lógica produtivista do capital e com seu meio de produção ou sua exploração, ou qualquer outro aspecto. Em alguns braços eles servem como maquiadores do capital, é o caso de programas como Bolsa Familia ou Fome Zero, e em outros eles acentuam ainda mais a lógica capitalista, como na questão ambiental ou educacional.

    Se dizerem Marxistas é um insulto à Marx, que deve estar se revirando no tumulo, como você já explicou muito bem pela visão ambiental, mas poderia ser explicado por diversas outras. Entretanto, acredito serem indignos não só do termo Marxista, que apesar de ser amplo é ainda um termo de certa forma restrito, mas como também dos termos "de esquerda"(independente da cor), "progressista", ou qualquer coisa do genero. Porque? Isso deriva dfa minha concepção de esquerda. Acredito que o capital cairá quando todos ou a maioria dos movimentos ideológicos anticapitalistas se unirem de forma anti-sectária e anti-sistemica na conjuntura certa e quebrarem o Capital de baixo pra cima. Esses grupos, que vão dos "anarco-loucos" à chamada "esquerda trtadicional"(ou engessada)eu considero de esquerda, independente das discordancias politicas que temos. Ser progressista é ser contra o Capital, é ser contra a lógica produtivista, é ser contra as principais bases do sistema, é ser radical(no sentido original do termo, resgatado por Michael Lowy no 2º FSM, derivado do latim "radix". Radical por atacar os problemas pela raiz). E essa "esquerda marrom" já provou não merecer o termo esquerda nem mesmo com ressalvas diversas vezes, seja em Pinheirinho, na Amazonia, no Morro do Alemão, na reserva dos Aymarás, nos cortes de orçamento que acontecem em todo o continente, ou em qualquer praça ou rua onde os movimentos sociais, onde a verdadeira esquerda anti-capitalista, é perseguida e criminalizada.

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  2. Discordo em parte, Yan. Sou a favor da definição de Bobbio para o conceito de esquerda: aqueles que combatem por maior igualdade e justiça. E o utilizaria também para o conceito de "progressista".

    Mas nem por isso apoiaria forças de esquerda e progressistas apenas por esses motivo. Eles não são suficientes. O trabalho assalariado pode ser considerado progressista em relação ao trabalho escravo, mas isso não me fará defender o capitalismo.

    Por outro lado, não descarto apoiar forças de esquerda ou progressistas em situações de sérias ameaças da extrema direita. Numa tentativa de golpe de estado, por exemplo.

    E há um problema de ordem mais prática. As forças reformistas e/ou oportunistas que se dizem de esquerda atraem muita gente que sinceramente acredita na transformação social. Se os combatermos como sendo de direita não conseguimos dialogar com esses setores para mostrar a diferença entre querer reformar ou melhorar o capitalismo e acabar com ele.

    Quanto aos marxistas, quem pode reivindicar tal condição, é um debate complicado. Apesar de eu defender a obra marxiana como revolucionária e achar que ela somente se realiza no combate mais radical, não sei se poderia desconsiderar as contribuições de quem não adota tal visão.

    Valeu pelo comentário.
    Abraço!

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