quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fazer viver, deixar morrer

“Fazer morrer, deixar viver. Fazer viver, deixar morrer”. Estas atitudes opostas representam duas formas de dominação, segundo Michel Foucault em seu livro “Em defesa da sociedade”.  A primeira corresponderia ao poder soberano dos reis. A segunda, ao poder disciplinador das sociedades atuais.

Um rei podia fazer seus súditos morrerem quando bem entendesse. Afinal, vidas humanas pertenciam aos domínios soberanos como tudo mais presente em seus territórios. Mas se não houvesse razão para se livrar deles, deixava que vivessem do modo que pudessem.

Atualmente, não interessa à maioria dos governantes mandar matar seus governados. O mais importante é determinar como eles devem viver. Principalmente, de que forma devem se comportar para servir à reprodução do capital.

É por isso que tudo deve estar sujeito a leis, regras, regulamentos, prescrições. Para cada doença, um remédio. Para cada tarefa, um treinamento. Para cada saber, um manual. Tudo em escala populacional. É o que Foucault chamava de biopolítica.

Um dos fenômenos típicos dessa forma contemporânea de dominação é a medicalização da vida. Um exemplo recente foi a publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais dos EUA. Publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, o livro traz uma lista de mais de 300 patologias.

São tantas “doenças”, que dificilmente alguém poderia ser considerado “saudável”. Na verdade, a insanidade está no ritmo que a sociedade contemporânea nos impõe. Um estilo de vida que fabrica a doença para vender o tratamento. Aos que não se ajustam, resta a morte, simbólica ou real.

Antes, os reis podiam castigar seus súditos com a morte. Os atuais poderosos só precisam nos condenar à vida.

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