quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Do funk ostentação ao funk contestação

Entre as muitas análises interessantes sobre os chamados “rolezinhos”, está o artigo “O Brasil ainda está longe de ser um país de classe média”, de Gustavo Andrey Fernandes, publicada no Valor em 17/01.

Fernandes diz que o preconceito contra a presença massiva de jovens pobres nos shoppings vem do perfil elitista desse tipo de varejo. Segundo ele, os empresários preferem vender pouco e caro a aumentar a quantidade e perder clientes ricos:

Naturalmente, esse fenômeno somente é possível dado um baixo nível de competição da economia brasileira, fruto da desigualdade social e do baixo nível de renda, o que permite sustentar preços elevados a um público que tolera pagar valores mais altos para consumir status.

Já o artigo “Pra onde vão os rolezinhos”, de Bruno Cava, compara estes eventos ao protesto realizado em agosto de 2000 no shopping carioca Rio Sul. Naquela ocasião, dezenas de sem-tetos entraram naquele centro de compras, causando reações negativas. Mas Cava alerta para as mudanças ocorridas desde então graças à ampliação do consumo proporcionado pelo lulismo. Em 2000:

... os pobres levam pão com mortadela para conseguir almoçar na praça de alimentação. Hoje, os jovens ocupam o Mac Donald´s. Entram nas lojas e não apenas apalpam a mercadoria: compram.

O texto publicado no blog “Quadrados Loucos”, em 15/01, destaca outro elemento importante. “Em 2014, o que aparece são corpos talhados com roupas de marca, cordões e relógios dourados, alegremente cantando funk”.

Quem diria! A estupidez das elites transformou o funk ostentação em funk contestação. E a repressão dos governos ainda pode transformar muitos jovens consumistas em novos ativistas.

4 comentários:

  1. Bom texto, mas descordo o que tem levada as pessoas consumirem mais seja resultado de uma renda superior, mas sim de uma aparente poder de compra que o governo da a população, chegando a criar uma falsa nova "classe média, o resultado disso é que as famílias chegam ao nível de endividamento que nunca tinha sido visto antes, de em 2013 chegar o percentual da dívida total das famílias em relação à renda anual média ser de 44,53%

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  2. Certo, Luís. Mas renda superior ou aparente poder de compra, o fato é que o consumo aumentou. Quanto ao endividamento, é preciso diferenciá-lo de inadimplência. E esta não está em níveis preocupantes até agora. O que mais deveria preocupar é a troca do acesso a direitos, como educação e saúde públicas por acesso a mercadorias.
    Obrigado pelo comentário
    Abraço

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  3. Precisa análise, Serjão! Penso também que se não são a forma mais politizada de intervenção, os rolezinhos podem ter um importante ingrediente pedagogico...

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    1. Poizé, Maurão. E se a repressão continuar, os maiores professores (com o perdão da comparação) serão os próprios poderosos.
      Abraço!

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