quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O samba ontem, o funk hoje

Antes de ser considerado um legítimo representante da música nacional, o samba foi muito perseguido. Antes dele, o mesmo ocorreu com manifestações carnavalescas populares como os entrudos e os cordões.

Em seu livro “Escolas de samba: sujeitos celebrantes e objetos celebrados”, Nelson da Nóbrega Fernandes lembra a crescente repressão estatal a essas manifestações populares. Cita Ismael Silva, que teria afirmado: “nós fizemos a escola de samba para não tomar porrada da polícia”. Assim mesmo, demorou muito até que o cassetete cedesse lugar ao poder econômico.

Na República Velha, depois do Carnaval, a Festa da Penha era o maior evento do Rio de Janeiro. O evento reunia mais de cem mil pessoas. Tanto povo junto só podia provocar o medo das elites. Em 1891, diz Nóbrega, o aparato repressivo designado para atuar na festa era “formado por 160 praças de cavalaria e infantaria”.

Além disso, os ricos não queriam que os foliões chegassem ao centro da cidade. Exemplo dessa disposição é o que Olavo Bilac escreveu na revista “Kosmos” em outubro de 1906:

Num dos últimos domingos vi passar pela Avenida Central um carroção atulhado de romeiros da Penha (...). Ainda se a orgia desbragada se confinasse no arraial da Penha!

Um século depois, os bailes funk são tão perseguidos como foram os batuques nas favelas. Os lugares “nobres” a serem protegidos do acesso dos pobres são os shoppings. Os “rolezinhos” são as novas romarias festivas, que a elite continua combatendo com cavalaria e infantaria. E ainda temos muitos Bilacs espalhados pela grande imprensa.

Mudou a música. O enredo continua o mesmo.

2 comentários:

  1. Não entendi as frases pinçadas de Olavo Bilac, pois elas soltas fora do texto atestam tudo e não atestam nada. Olavo Bilac foi companheiro inseparável do ícone do combate ao racismo e da defesa de uma educação popular no Brasil, o mestiço Manoel Bomfim. Bilac e Bomfim escreveram obras primas para a alfabetização das camadas populares, como o "Através do Brasil" com quase setenta edições.

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  2. Eduardo, as frases em questão fazem parte da seguinte citação encontrada no livro de Nelson da Nóbrega Fernandes: "Num dos últimos domingos vi passar pela Avenida Central um carroção atulhado de romeiros da Penha: e naquele amplo boulevard esplêndido, sobre o asfalto polido, contra a fachada rica dos prédios altos, contra as carruagens e carros que desfilavam, o encontro do velho veículo, em que os devotos bêbedos urravam, me deu a impressão de um monstruoso anacronismo: era a ressurreição da barbárie - era uma idade selvagem que voltava, como uma alma do outro mundo, vindo perturbar e envergonhar a cidade civilizada...Ainda se a orgia desbragada se confinasse no arraial da Penha! Mas não! Acabada a festa, a multidão transborda como uma enxurrada vitoriosa para o centro da urbs...". Essas palavras podem não ser racistas, mas são elitistas.
    Obrigado pelo comentário
    Abraço

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