quarta-feira, 28 de maio de 2014

Honrando esteiras e porcos

No momento em que nossos indígenas sofrem terríveis ataques a seus direitos, seria bom lembrar um livro chamado “O Papalagui”, de 1920. Trata-se da tradução feita pelo alemão Erich Scheurmann dos pensamentos de Tuiávii, chefe da comunidade da ilha de Upolu, em Samoa, na Polinésia.

“Papalagui” em samoano quer dizer “homem branco” ou “europeu”. Tuiávii admira os prodígios de que são capazes os brancos. Mas também enxerga neles “loucos furiosos”. “Eles se matam”, diz ele. “O sangue, o pavor, a destruição reinam”.

Em um de seus comentários mais interessantes, o líder samoano diz:

A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui.

Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras, muitos porcos, mas é só a ele que honramos, e não às esteiras e aos porcos. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente, como alofa [retribuição], para mostrar-lhe o nosso contentamento, para louvar a sua grande coragem, a sua grande inteligência. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui; pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. O irmão que não tem esteiras nem porcos, poucas honras recebe, ou não recebe honra alguma.

Somos assim. Desonramos pessoas e sua dignidade. Honramos esteiras vermelhas por onde desfilam porcos engravatados.

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