quarta-feira, 7 de maio de 2014

Linchamentos são as manchas de nossa gangrena social

Ninguém estudou os linchamentos no Brasil tanto quanto o sociólogo José de Souza Martins. São mais de 30 anos dedicados ao estudo do fenômeno.

Em 17/02/2008, Martins deu entrevista sobre o assunto ao jornal Estado de S. Paulo. Naquele momento, ele calculou em mais de 500 mil os que já haviam participado de linchamentos nos últimos 50 anos no Brasil. A grande maioria deles, pobres, na condição de vítimas e agressores.

Em outubro de 1996, o sociólogo publicou o artigo “Linchamento, o lado sombrio da mente conservadora”, na revista “Tempo Social”, da USP. No texto, polemizava com quem considerava esse tipo de “justiçamento” popular um embrião de movimento social. Para Martins, essa iniciativa coletiva devia-se, pelo menos em parte:

... à ampla desmoralização das instituições, especialmente a Justiça e a Polícia, durante a ditadura. O governo militar interferiu ativamente nelas para torná-las parciais e submetê-las às suas diretrizes políticas.

Seis anos depois, o governo federal é ocupado por uma das muitas vítimas das torturas cometidas nos porões da ditadura. Continuamos esperando que seja feita justiça em relação a esses atos, que são ainda piores que os linchamentos.

Estes últimos são resultado de explosões irracionais da ira popular, baseada no sentimento de impunidade. As torturas foram motivadas por uma racionalidade doentia a serviço do poder mais despótico.

São 29 anos desde o fim da ditadura militar e meio século de domínio por uma minoria violenta e racista. O linchamento e a tortura permanecem como manchas escuras, sintomas de relações sociais gangrenadas.

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