segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Apendicite tecnológica

Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição produtiva entre antigos processos de trabalho e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos.

Mais de 150 anos depois, o fenômeno só se aprofundou. Funcionamos cada vez mais como acessórios de sistemas robotizados e informatizados, e não apenas em fábricas.

Mas não é só isso. Muita gente começa a ter calafrios só de pensar na possibilidade de ficar sem bugigangas eletrônicas como smartphones e tablets, diz Ronaldo Lemos, na Folha de S. Paulo em 04/01. Segundo o colunista, nossas dificuldades para ficar longe desses “apêndices” tecnológicos deve-se ao fato de que eles:

... não são mais apenas ferramentas de comunicação, mas moduladores do nosso estado emocional. A forma como as mídias sociais são desenhadas propicia um sistema de pequenas recompensas (e frustrações) que interfere diretamente na nossa sensação de bem-estar.

Essa escravidão aos aparelhos eletrônicos não está diretamente ligada ao fenômeno a que se referiu Marx. Mas grande parte das “recompensas” proporcionadas por nossos “gadgets” fazem parte da lógica daquela produção.

De um lado e de outro, doenças parecidas. A maior diferença é que na ponta do consumo, a retirada do apêndice consegue piorar a apendicite.

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