segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Evaporados, invisíveis, esbranquiçados, alvejados...

Em 29/01, Arthur Dapieve apareceu com uma informação interessante em sua coluna do Globo. O texto começa falando sobre o peso social da vergonha entre os japoneses. Um sentimento tão avassalador que em “casos extremos”, a “sociedade japonesa praticamente dita que o cidadão” se mate.

Mas o verdadeiro tema do artigo são “johatsu” ou “evaporados”:

...pessoas que desaparecem voluntariamente, matando a antiga identidade, não o corpo. Elas saem de casa, não deixam vestígios, recomeçam noutra cidade, quase sempre em definitivo. Quando fica evidente que não há crime envolvido, a polícia se afasta do caso. As estimativas vão de 85 mil (a oficial) a 185 mil (a paralela) evaporados ao ano.

O fenômeno chegou a motivar a criação de “empresas semiclandestinas para facilitar a evaporação e bairros que concentram os evaporados”.

No Brasil, conhecemos algo parecido. No lugar dos evaporados, porém, temos os invisíveis. Principalmente, aqueles envolvidos em atividades serviçais, como porteiros, garçons, balconistas, babás, domésticas, motoristas, faxineiros, garis, recepcionistas etc.

A grande maioria dessas pessoas é negra. E muitos dos que por eles são atendidos os tratam com a educação condescendente que nosso racismo exige. Uma atitude que pretende explicar o desprezo que lhes reserva a sua posição subalterna e não à cor de sua pele. 

Outro tipo de metamorfose comum entre nós é a que atinge várias personalidades da história brasileira. Alguns exemplos: Aleijadinho, Machado de Assis, os irmãos Rebouças, José do Patrocínio, Carlos Gomes, Rui Barbosa, Nilo Peçanha e Castro Alves. Todos de ascendência africana, mas devidamente embranquecidos pela historiografia pátria.

Mas entre evaporados, invisíveis e esbranquiçados, ainda temos os negros alvejados. Pela polícia.

Leia também: O berço do conhecimento universal é africano

2 comentários:

  1. Gostei do duplo sentido do alvejado: no título achei que era o embranquecimento, e no final mudou para o alvo de tiro.

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  2. Sim, sendo que alvo vem exatamente do costume de pintar um ponto branco em uma área escura a ser atingido pelos atiradores.
    Braço!

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