terça-feira, 26 de abril de 2016

Para além do escorpião, o ornitorrinco

Concluir que não se deve confiar no escorpião burguês não basta para orientar a ação da esquerda revolucionária. É preciso conhecer o próprio escorpião em detalhes.

Mas o animal mais adequado para simbolizar nossa situação social talvez seja outro. É o ornitorrinco, como defende o sociólogo Francisco de Oliveira, em um ensaio de 2003, batizado com o nome do bicho.
 

A criatura em questão tem bico e pés de pato, o rabo chato de um castor, características reptilianas e, apesar de botar ovo, possui mamas.

A formação social brasileira, afirma Oliveira, seria parecida com essa verdadeira encruzilhada da evolução, apresentando a convivência entre elementos sociais e econômicos modernos e arcaicos.

Por isso, não seria a superação do atraso que destravaria o desenvolvimento. Ao contrário, em nossa sociedade “o chamado ‘moderno’ cresce e se alimenta da existência do ‘atrasado’”, diz o sociólogo.

O fenômeno lembra o conceito de “desenvolvimento desigual e combinado”, de Leon Trotsky. Um achado teórico que permite explicar por que relações e estruturas ultramodernas não apenas convivem como dependem da permanência do que há de mais retrógrado.

É só olhar para nossa estrutura agrária, praticamente a mesma desde as capitanias hereditárias, ou para a persistência de valores escravocratas. Sem falar em uma elite que admira padrões considerados de “primeiro mundo” e aplaude neandertais como Jair Bolsonaro.

Trata-se de uma abordagem importante para uma análise precisa da luta de classes no Brasil. Principalmente, para superar qualquer ilusão não apenas na burguesia, mas em instituições cujo caráter democrático foi soterrado pelo conservadorismo mais moderno.

Afinal, também o ornitorrinco tem um esporão venenoso.

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2 comentários:

  1. Nossa, essa reflexão zoopolitica está ficando cada vez mais complexa, mas admito interessante. Aguardo próximos capítulos, ou melhor, animais. Sabe que ia te propor pílulas com um encadeamento de um mesmo assunto. Veio a calhar. Abraços

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