segunda-feira, 14 de maio de 2018

O sargento Silvio e o general Geisel

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O trecho acima é da crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada por Lourenço Diaféria na Folha de S. Paulo, em 1977. O texto levou seu autor à prisão, por “ofensa às Forças Armadas”.

Episódios como esse mostram como a covardia com que os governos da ditadura militar torturavam e executavam prisioneiros também os tornava valentes diante de pessoas armadas apenas com máquinas de escrever.

E, “todavia”, figuras como Geisel morreram em seus leitos tranquilamente, livres de qualquer vergonha. Mas só elas ficaram livres. Nós não.

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