quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Marx, blackberries e a carcaça do tempo

Ricardo Antunes publicou o artigo “A fatura do bem-estar” no Estadão, em 16/09. Segundo o sociólogo:

BlackBerry era um grilhão usado durante a escravidão, nos Estados Unidos, que atava os pés dos negros como forma de impedir sua fuga. Só que agora adentramos na fase do grilhão digital.

Como exemplo dessa nova servidão, Antunes cita a Google. A empresa oferece transporte a seus funcionários com acesso a internete para que comecem a produzir antes mesmo de chegar ao local de trabalho.

Segundo Antunes esse tipo de prática se espalha pelo mundo empresarial. É o que ele chama de "ócio criativo", cujo resultado é o “aumento da massa de mais valia, através da subordinação dos trabalhos imateriais à forma-mercadoria”.

Recentemente, o Tribunal Superior do Trabalho julgou casos de trabalhadores que ficam à disposição de seus patrões através de algum aparelho, como o celular. Os juízes decidiram que eles terão direito a receber pagamento adicional. Difícil que a medida legal seja obedecida. Mas, mesmo que o seja, jamais compensará o lucro gerado pelo trabalho extra.

Tais formas de exploração são novíssimas, mas obedecem a uma lógica antiga. Têm a mesma idade do capitalismo e foram denunciadas por Marx há mais de um século e meio. Vejam o que ele diz no livro “Miséria da Filosofia”, escrito em 1847:

O tempo é tudo, o homem não é mais nada; ele é no máximo a carcaça do tempo. Não existe mais a questão da qualidade. A quantidade decide tudo: hora por hora, jornada por jornada.

Isso é o capitalismo. A união da estúpida escravidão negra com a sofisticada servidão tecnológica.

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