sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Migalhas em um pote até aqui de mágoa

“Gotejamento” é o nome de uma famosa receita do Banco Mundial para a pobreza. Segundo ela, os pobres ficariam com o que pinga dos suculentos lucros das grandes corporações econômicas. No Brasil, a fórmula ganhou imagem culinária. Durante a ditadura militar, dizia-se: “primeiro, é preciso deixar o bolo crescer. Só depois, dividir”.

Parece que os governos posteriores continuaram a pensar o mesmo. No período lulista, não faltou fermento e farinha. É só conferir os números do artigo “O fim da festa nos emergentes”, de Ricardo Hausmann, publicado recentemente no Valor. Entre 2003 e 2011, enquanto países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão cresceram na casa dos 30%, a economia brasileira se expandiu 348%!

Mas que parte desse enorme bolo coube à maioria da população brasileira? Lucianne Carneiro Cleide Carvalho responde em sua matéria “Novo mapa dos negócios”, publicada no Globo em 12/09: “Após crise, receita das 50 maiores empresas do Brasil cresceu o dobro do avanço do PIB”.

Ao mesmo tempo, reportagem publicada na revista Exame em 09/09 diz: “124 pessoas mais ricas do Brasil correspondem a 12,3% do PIB”. Esta minoria microscópica acumula “um patrimônio equivalente a R$ 544 bilhões”. Ou seja, se alguém se lambuzou comendo não foram os trabalhadores.

O tal “gotejamento” parecia estar funcionando até junho passado. De repente, algo fez o copo transbordar e multidões inundaram as ruas. Lembrando a bela canção de Chico Buarque, quando se trata de um pote até aqui de mágoa, qualquer desatenção pode ser a gota d'água.

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