sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O apocalipse das mulheres fodidas

Valter Hugo Mãe escreveu um livro sobre o apocalipse dos trabalhadores. Na verdade, sobre trabalhadoras a dias, que é como se chamam às diaristas em Portugal. Mulheres à míngua, que é como são as trabalhadoras em geral.

Representam o que há de mais explorado e humilhado entre os que vivem das forças dos próprios braços. E fazem de suas grossas pernas e largas ancas a vassoura e o esfregão. E limpam o chão com as próprias roupas, anáguas, joelhos, dobradiças de dor.

Mulheres cujos maridos violam como se lhes fizessem favor. E que cedem a um sexo com o patrão, tão consentido quanto rendido. Que já não sabem a diferença entre encerar o assoalho e deitar-se nele para um coito sem brilho. Que nunca fizeram amor. Jamais farão amor.

Nem mesmo o apocalipse chega para essas mulheres fodidas, por que à portada do céu, São Pedro rabugento lhes barra a entrada. Ficam à solta na praça fedida e cheia de camelôs que beira o paraíso. São muitas e chegam cada vez mais. E as portas não se abrem.

A multidão feminina acumula-se e muitas vêm de um lugar onde, a cada hora e meia, uma cai morta. E é terra cheia de filhos bastardos, enjeitados, escuros e aflitos. Membros da família amaldiçoada, escrava de um pequeno clã sagrado.

São fodidas essas mulheres e nem o Juízo Final está disponível para elas.

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