quinta-feira, 10 de março de 2016

Lula no xadrez

A propósito da comparação do momento político atual com uma partida de xadrez, seria interessante lembrar um movimento muito singular dentro do jogo. Trata-se da promoção do peão.

Peões, em geral, são destinados ao sacrifício. Na grande maioria das vezes, eles só podem andar uma casa por vez e apenas para frente. Dificilmente, protagonizam jogadas decisivas.

Mas na promoção, um peão que consiga chegar à última casa poderá ser trocado por outra peça. Em geral, a escolha recai sobre a rainha, por seu alto valor no jogo.

Inevitável comparar Lula ao peão que atravessou o campo adversário. O problema é que uma vez elevado à condição de rainha, insistiu em colaborar com as manobras do campo inimigo.

Passados inúmeros lances em que deslocou-se com alguma desenvoltura, a rainha teria sido finalmente cercada por quem jamais deixou de considerá-la um desprezível peão.

É verdade que falta clareza quanto aos próximos lances. Por enquanto, há fortes indícios de que um dos cavalos inimigos fez uma manobra precipitada, complicando os movimentos de seus aliados.

Talvez, por isso, a rainha sob sítio avalie que ainda tenha algumas boas jogadas preparadas. Pelo menos, é o que indica uma recente declaração a ela atribuída: “Se me prenderem, eu viro herói. Se me matarem, viro mártir. E se me deixarem solto, viro presidente de novo".

É bem possível. Mas o primeiro movimento do ex-presidente após sua detenção para interrogatório pela Polícia Federal não deixa dúvidas. Lula foi a Brasília, encontrar-se com Renan Calheiros.

O peão parece conhecer apenas a jogada que permite sua entrada e permanência entre as forças inimigas.

Leia também: A política no xadrez

4 comentários:

  1. Grande camarada, adorei a sua analogia de promoção do peão, muito apropriada, e com uma relação muito forte e óbvia. Estou percebendo que está gostando das analogias, espero não terminar como o ex-presidente citado (só brincadeira, te conheço e sei que passa longe disso) porque ele gostava de fazer com o futebol.
    Agora, estou com um problema de entendimento. Na pílula anterior você cita muitas peças do xadrez. Não consegui identificar, mas não esquentei porque eram muitas. Nesta você cita o cavalo. Que cavalo é esse? Não sei se estou com dificuldade de entender a complexidade do xadrez ou do campo político dada essa confusão montada. Que balburdia que nos meteram (nós da esquerda) que estávamos meio que quietinhos no nosso canto: se ficarmos nos confundem com a direita, se corrermos com o reformismo.
    Assinado: leitor aflito

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  2. Então, Marião. Analogias são divertidas e ajudam a entender certos cenários. Mas nem sempre as coisas se encaixam nelas com a adequação de um texto mais teórico e “sério”. Na verdade, a putaria que tá rolando tá muito longe das pacatas partidas de xadrez. Por isso, na outra pílula disse que o tabuleiro às vezes balança e as peças saem de seus lugares.

    De qualquer maneira, o possível coice do cavalo da outra pílula simbolizava possíveis ameaças de que os militares entrassem em cena. Mas isso não parece ter se confirmado. Já o cavalo dessa pílula representaria o Judiciário, especialmente os membros da Lava-Jato, incluindo magistrados, promotores, procuradores e a PF.

    Agora, você tem toda razão. O quadro, que para nós da oposição de esquerda já era bastante confuso sem que ameaçassem a figura do Lula, está ainda mais caótico. Mas o fato é que não dá nem pra pensar em defender o peão que gostou de se vestir de rainha. No máximo, a democracia, o estado de direito etc etc...

    Bração

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  3. Boa análise Serginho! E sim, tá muito difícil dialogar quanto militante com qualquer indivíduo, pois essas lambanças estão nos colocando num lugar de maior dificuldade de diálogo e compreendimento, e de certa forma, nos envergonha, uma vez que remete todos de oposição da direita ou do capitalismo no mesmo barco, ou seja, nos colocam na seguinte frase "é tudo farinha do mesmo saco", e que ao fazermos a crítica, nos interpretam como se estivéssemos defendendo os assassinos da esquerda brasileira, a esquerda de fato, uma vez que nos tornamos todos iguais para aqueles que nos viam como esperarnça ou saída, e para aqueles a quem deveríamos atraír suas atenções para reconhecimento de classe. Eu quanto militante não imaginava q poderia piorar, mas sim, piorou e pior, que isso pode piorar ainda mais, refletindo na nossa militância negativamente. Pois aqueles a quem deveríamos conguistar estão sendo afastados de nós, nos vendo como inimigos, o que afinal isso acabou favorecendo e muito a direita e a direita conservadora desse país, dando a ela um golpe certeiro, onde talvez necessariamente não fosse o objetivo.

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  4. Eu é que digo a você, Sandra: boa análise.
    Gostaria que estivéssemos os dois errados, mas se aproxima uma enorme derrota para a esquerda toda.
    Beijos, querida camarada!

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