terça-feira, 1 de março de 2016

No Rio de Janeiro, o alcaide gentileza

Na fundação do Rio de Janeiro, Estácio de Sá levou a população para fora dos muros da cidade e os portões foram fechados. O fundador bateu três vezes. Os portões se abriram e a população entrou.

451 anos depois, o episódio poderia se repetir. Claro que como farsa.

Postado na Praça Mauá, à beira da Baía, e fantasiado de alcaide colonial, Eduardo Paes bateria no portão cenográfico oferecido pelas Organizações Globo. À frente de um cordão de puxa-sacos, entraria cenário a dentro.

No interior da cidade, casas populares sendo demolidas, seus moradores despejados. Pretos e pobres perseguidos encarniçadamente pela polícia. Trens, ônibus e metrô circulando lotados e quentes, a preços tórridos. Comerciantes de rua apanhando da Guarda Municipal. Manifestantes sendo surrados pela Tropa de Choque. No ar uma nuvem de mosquitos.

Assustados, alguns convidados e companheiros de desonra do senhor prefeito tentariam recuar. Mas seriam impedidos pelo medo de cair nas águas podres da Guanabara, logo ali atrás deles.

O prefeito e sua comitiva abririam caminho em meio àquela confusão toda, rumo ao palco principal. Nele estariam vários sobrenomes importantes como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Carvalho Hosken, além dos Barata e Marinho. Não poderiam faltar os representantes de empresas como OAS, Inverpar e CCR.

Todos prontos a receber a cidade de presente para sua livre e exclusiva exploração, já na condição de verdadeiros e únicos vencedores dos Jogos Olímpicos que ainda nem começaram.

À frente desse belo espetáculo, dança e gira um idoso senhor. Com sua longa barba branca, envergando a mais alva das batas, ele gritaria em grande êxtase e delírio: “Gentileza gera gentileza”!

Leia também: E o Rio de Janeiro continua... bang, bang, bang

3 comentários:

  1. Caracas, lindo. Eu vi um filme do Cinema Novo, Macunaíma, uma grande alegoria crítica do belo Rio.

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  2. Ah, acho que no final estava se referindo ao Gentileza, né? Aquele homenageado por Gonzaguinha e Marisa Monte.

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  3. Preciso (re)ver Macunaíma. E acho que reler também seria bom. O "Profeta Gentileza". Mas ele é outra figura complicada. Apesar de toda a badalação que rola com ele nas últimas décadas era um cara meio fanático, que ofendia garotas de minissaias, por exemplo.

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