sexta-feira, 10 de março de 2017

Lugar de mulher é longe do lar

“Invisível, repetitivo, exaustivo, improdutivo, não criativo”. É assim que Angela Davis descreve os intermináveis afazeres domésticos femininos em seu livro "Mulheres, raça e classe".

No entanto, diz ela, tarefas como essas, executadas sob condições técnicas primitivas, podem ser consideradas historicamente obsoletas diante dos avanços tecnológicos atuais. Então, por que elas persistem?

Angela cita uma tese de Mariarosa Costa intitulada “Mulheres e a subversão da comunidade”, de 1973. Segundo o estudo, “o caráter privado dos trabalhos domésticos é uma ilusão”. A dona de casa parece servir apenas a sua família, “mas os verdadeiros beneficiários dos seus serviços são os patrões do seu marido e os futuros empregadores de seus filhos”.

A partir desta análise, Mariarosa propõe lutar por remuneração salarial pelo trabalho doméstico. Afinal, diz ela, as donas de casa são grandes responsáveis por produzir a força de trabalho, “mercadoria tão importante e valiosa como aquelas que os seus maridos produzem no trabalho”.

Mas Angela não concorda com a proposta de assalariamento. Para ela, é preciso tirar as mulheres de casa. Libertá-las de tarefas que fazem sofrer e embotam o potencial humano da grande maioria delas.

Para isso é preciso criar amplas redes de creches, refeitórios e escolas em tempo integral. Também é possível automatizar radicalmente as residências. O livro é dos anos 1970. Mas no século 21, as casas inteligentes já são uma realidade, ainda que para uma minoria.

Lutar por essas conquistas e por igualdade no âmbito do trabalho pode ter um potencial revolucionário explosivo, afirma Angela. E é cada vez mais necessário. Principalmente, quando governantes continuam a condenar as mulheres ao “recato do lar”.

2 comentários:

  1. Sergio, tudo de acordo em relação a tirar a mulher dessa tarefa. Agora, não dá pra acreditar que o desenvolvimento tecnológico resolva. Penso que a tarefa doméstica vai ser um compartilhamento da família:
    pai, mãe e filhos maiores. Digo isso pra hoje.

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    1. Desenvolvimento tecnológico pra fazer isso tem de sobra, mas realmente não será ele que vai resolver porque a questão tem várias facetas, a começar pela política, mas também cultural, comportamental etc. E, claro, pra hoje, o compartilhamento já é um passo nessa direção, pequenino, até, mais que ainda encontra muita resistência.
      Valeu!

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