sexta-feira, 20 de abril de 2018

Depressão, trabalho e tempo

No livro "O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões", Maria Rita Kehl procura entender como os "transtornos depressivos" se tornaram epidêmicos nas últimas décadas.

Ela acha possível que o "aumento assombroso" dos diagnósticos de depressão esteja ligado ao interesse da indústria farmacêutica em turbinar suas vendas. Mas também "pode indicar que o homem contemporâneo está particularmente sujeito a deprimir-se".

Uma das explicações para essa predisposição estaria relacioanda ao tempo. Por exemplo, na Idade Média:

Havia certa solidariedade entre o tempo do trabalho, comandado pelo percurso do sol, e o restante do tempo social, comandado pela Igreja, cujos sinos indicavam o momento das orações matinais e vespertinas...

Aos poucos, no entanto, os ciclos de produção artesanal passaram a se libertar da alternância das estações. O trabalho do artesão torna-se "mais submisso à ordem que ele mesmo criara do que aos ritmos naturais". O tempo urbano do comércio substituindo o tempo da Igreja.

"O indivíduo moderno também não é senhor de seu tempo", diz Maria Rita. "A diferença é que ele já não sabe disso". O tempo do trabalho invade cada vez mais "a experiência da temporalidade". São as:

...atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção.

Desse modo, seria possível que:

Ainda que eles não saibam disso, a inadaptação dos depressivos em relação às formas contemporâneas de aproveitar o tempo pode ser reveladora da memória recalcada de outra temporalidade, própria do "tempo em que o tempo não contava".

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