quarta-feira, 4 de abril de 2018

1900: intervenção militar no Rio de Janeiro

Os trechos abaixo são de “Machado: Romance”, de Silviano Santiago, vencedor do Prêmio Jabuti 2017.

Em 1900, era tamanho “o descalabro da vigilância policial” no Rio de Janeiro:

... que o coronel Hermes da Fonseca, que viria a ser presidente da República e era então comandante da Brigada Policial, convoca o delegado Eneias para discutir questão mais ampla e definitiva. Em pauta nas negociações do alto escalão, a proposta de a força militar da nação reforçar a força policial do Distrito Federal. Força militar e polícia civil dariam as mãos no combate ao crime na capital da República. Assinado o acordo, o coronel Hermes da Fonseca decide que “serão postos à disposição da polícia central mil e tantos praças, diariamente, para que sejam distribuídos pela cidade”.

Mas logo “os responsáveis pela ordem pública extrapolam a noção de crime segundo a lei penal, aplicando-a ao comportamento privado de muitos dos cidadãos e dos artistas”.

Conclusão do narrador:

Os problemas que a capital federal enfrenta não se resolvem com o policiamento indiscriminado dos miseráveis e dos desclassificados, segundo as normas ditadas pela moral pequeno-burguesa. É a sociedade carioca como um todo que, na passagem do século XIX para o seguinte, embaralha de modo contraditório os cacos que a compõem. Quer ser moderna e é tradicionalista, injusta e preconceituosa. Nunca reconheceu o trabalho livre e continua a não reconhecê-lo e, se é obrigada a reconhecê-lo pelas circunstâncias da Lei Áurea e da Proclamação da República, é apenas para que dele se sirva com um à vontade que escandaliza qualquer estrangeiro culto que nos visita.

Cento e dezoito anos depois...

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