10 de abril de 2018

Marx e a natureza humana

Mais trechos de “Marx Estava Certo”, livro do marxista britânico Terry Eagleton, publicado originalmente em 2011. Agora, sobre a existência ou não de uma natureza humana:

...alguns marxistas insistem em que não existe uma essência imutável nos seres humanos. Em sua opinião, é nossa história, não nossa natureza, que nos faz ser o que somos, e, como a história tem tudo a ver com mudança, podemos nos transformar alterando nossas condições históricas. Marx não era adepto integral desse argumento “historicista”.

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No volume I de “O capital”, Marx fala da “natureza humana em geral e depois (...) conforme modificada em cada época histórica”.

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Os seres humanos, por exemplo, nascem todos “prematuramente”. Durante muito tempo após o nascimento, são incapazes de cuidar de si mesmos, tendo necessidade, em consequência, de um prolongado período de assistência

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Ainda que os cuidados recebidos sejam péssimos, os bebês logo assimilam uma noção do que é cuidar dos outros. Esse é um dos motivos por que, mais tarde, talvez sejam capazes de identificar todo um estilo de vida como insensível às necessidades humanas. Nesse sentido, podemos passar do nascimento prematuro para a política.

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...é um erro pensar que a ideia de natureza humana não passa de uma apologia do “status quo”. Ela também pode agir como um poderoso desafio a ele.

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Somente por meio dos outros podemos, enfim, ser nós mesmos. Isso significa um enriquecimento, e não uma redução, da liberdade individual. É difícil pensar numa ética mais perfeita. Em nível pessoal, chamamos a isso amor.

Mais do que concordar com essa concepção, precisamos apostar nela.

4 comentários:

  1. "Somente por meio dos outros podemos, enfim, ser nós mesmos. Isso significa um enriquecimento, e não uma redução, da liberdade individual. É difícil pensar numa ética mais perfeita. Em nível pessoal, chamamos a isso amor." Bonito, hem!

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  2. Conversando: notei aí uma significativa influência do pensamento psicanalítico - uma psicanálise critica, histórica, é bem verdade. Freud sempre insistiu nessa prematuridade, assim como na historicidade do Eu. A formação do Eu é um processo sensorial e histórico. Dos primeiros momentos desse processo, anteriores à aquisição da linguagem, muito se perde: da 'história' restam fragmentos e cacos, daí Freud associar uma parte do trabalho psicanalítico ao do arqueólogo... Reich vai fundo nessa visada, a ponto de propor que o princípio de prazer - assim como o de realidade - muda com a história... Hélio Pellegrino, em 'Édipo e a paixão', tem passagens belíssimas sobre essa prematuridade que Eagleton está a enfatizar. bela matéria, Sérgio, como sempre! abração

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    1. Sim, Alexandre. Debate muito interessante e mais importante do que se supõe.
      Mais uma vez, obrigado pelos comentários.
      Abração

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