terça-feira, 14 de junho de 2016

Sobre bichas e armas

“Suas bichas, vou atirar em vocês!". Esta frase não está relacionada ao recente massacre ocorrido em uma boate gay, em Orlando, Estados Unidos. Foi berrada em Recife e se dirigia ao publicitário Marlon Parente e um grupo de amigos.

O episódio levou Parente a juntar seis amigos homossexuais para produzir "Bichas, o documentário". Concluído em tempo recorde e custo zero, o vídeo está disponível no youtube e já alcançou 490 mil visualizações.

O documentário permite conhecer uma pequena, mas importante, parte dos conflitos que envolvem a subjetividade homoerótica. Principalmente, o preconceito e a violência física e simbólica que a cercam.

É o tipo de produção que deveria ser amplamente divulgada pelos meios de comunicação. No lugar dos casais gays bonitos e ricos das telenovelas, um pouco da realidade massacrante do país que é campeão mundial de violência homofóbica.

Mas a matança que vitimou pelo menos 50 pessoas em Orlando tem servido de pretexto para tudo, menos para a discussão da condição homossexual.

Não faltam descrições detalhadas das armas utilizadas pelo assassino e da biografia do assassino. Sem falar em debates vazios sobre controle de armamentos.

Não à toa, já começam a dizer que o próprio assassino era homossexual, transformando tudo em um drama restrito ao “mundo doentio dos gays".

Enquanto isso, a programação de TVs e rádios espalha diariamente preconceitos que reforçam a homofobia e as estruturas policial e judiciária só sabem punir ainda mais suas vítimas.

Entre bichas e armas, os aparelhos de dominação públicos e privados perseguem e ridicularizam as primeiras para torná-las alvos fáceis das últimas. Orlando também é aqui.

Leia também: Homofobia e fotossíntese no inferno

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