15 de setembro de 2017

Para o capital, o pecado. Para nós, o castigo

No capitalismo, a imensa maioria das pessoas é obrigada a trabalhar para a pequena minoria que controla os meios de produção. Mas esta última alega que chegou a essa condição porque fez por merecer.

Falso. Quase todos os patrões herdaram suas empresas.

Ainda assim, responderia essa elite, seus antepassados trabalharam duro para que sua descendência não só desfrutasse como criasse oportunidades de trabalho para os despossuídos.

Tudo isso faria sentido não fosse o que Marx chamou de acumulação primitiva do capital. O conceito aparece em “O Capital” para descrever o surgimento do capitalismo. Foi nesse momento, por exemplo, que os camponeses ingleses tiveram suas terras comunais roubadas pela burguesia nascente.

Mas não só isso. Um trecho:

As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior de minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva.

Na verdade, a tradução mais fiel do original em alemão para o conceito seria acumulação “originária” do capital. O termo “originário” é uma sutil referência ao pecado original bíblico. Aquele cometido pelo primeiro casal, que expulsou a humanidade do Éden e nos condenou a continuar pecando.

Do mesmo modo, a burguesia surgiu cometendo os piores pecados. E nunca mais parou. São inúmeras guerras, tragédias sociais, catástrofes ambientais causadas por poderosos interesses econômicos.

A diferença, aqui, é que os piores castigos nunca desabam sobre os maiores pecadores.

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