sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A partícula de Orfeu

A imprensa anda falando muito sobre a “partícula de Deus”. A confirmação de sua existência seria o elemento que falta a uma grande equação. Algo que explicaria de que modo nasceu e se desenvolveu o universo. Exagero.

“Partícula de Deus” é o nome de um livro de Leon Lederman, prêmio Nobel de Física. O título foi adotado pelo editor no lugar de “A Partícula maldita”, sugerido pelo autor em referência à dificuldade de encontrá-la. E uma escolha editorial ganhou um ar meio arrogante.

A necessidade de explicar e capturar a totalidade parece ser inerente ao ser humano. O fato é que nossa espécie contraria as leis da natureza e ainda tem consciência da própria finitude. É o que ganhamos por comer do fruto proibido.

Daí, o surgimento da religião, que vem do latim “religare”. Ou seja, aquilo que pode unir o que está desunido. Dar sentido ao que parece caótico. Há uns 200 anos, começaram a atribuir à ciência este papel.

Ambas são tentativas legítimas. O perigo é achar que serão totalmente bem sucedidas. Os melhores teólogos e cientistas sabem que sempre haverá mistérios.

Talvez, seja melhor adotar como modelo a arte. Em sua infância, Orfeu não conseguia suportar os barulhos do mundo. Por isso, tentou se isolar deles. Ao ver que seria impossível, resolveu organizá-los. Com ajuda das musas acabou criando a música.

O melhor fazer humano é como a música. Empresta beleza a sons confusos. Organiza e reorganiza o caos seguindo razão e sensibilidade. Não é só partícula nem apenas totalidade. É particularidade cheia de universalidade.

Feliz 2012!

Leia também: Amy e o sentimento oceânico

Um comentário:

  1. Lindo texto! Uma coisa é certa, cada pergunta respondida é a porta que se abre para muitos outros questionamentos. Bom 2012 pra todos!

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