segunda-feira, 25 de junho de 2012

As dívidas e as dádivas

As dívidas estão no centro das preocupações mundiais. Na verdade, já não existe capitalismo sem elas. E há até quem as considere parte da natureza humana. Para estes, talvez fosse lembrar o “Ensaio sobre a Dádiva”, de Marcel Mauss. Nele, o sociólogo e antropólogo francês investiga a troca de presentes entre os polinésios.

Em um trecho, Mauss cita notas do etnógrafo Robert Hertz sobre o “hau” (o “espírito da coisa dada”). Quem explica é um morador local:

Suponha que o senhor possui um artigo determinado (taonga), e que me dê esse artigo: o senhor o dá sem um preço fixo. Não fazemos negócio com isso. Ora, eu dou esse artigo a uma terceira pessoa que, depois de algum tempo, decide dar alguma coisa em pagamento (utu), presenteando-me com alguma coisa (taonga). Ora, esse taonga que ele me dá é o espírito (hau) de taonga que recebi do senhor e que dei a ele. Os taonga que recebi por esses taonga (vindos do senhor) tenho que lhe devolver. Não seria justo (tika) de minha parte guardar esses taonga para mim, quer sejam desejáveis (rawe) ou desagradáveis (kino). Devo dá-los ao senhor, pois são um hau de taonga que o senhor me havia dado. Se eu conservasse esse segundo taonga para mim, isso poderia trazer-me um mal sério, até mesmo a morte. Tal é o hau, o hau da propriedade pessoal, o hau dos taonga, o hau da floresta. Kati ena (basta sobre esse assunto).

Entendeu? Difícil, né? Pois, experimente explicar como funciona, e principalmente para quê serve, o nosso sistema de dívidas. Kati ena!

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