sexta-feira, 9 de julho de 2010

Você conhece os cronópios?

E os famas?

Ambos, mais as esperanças, são personagens do livro Histórias de Cronópios e Famas, do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984).

O que são? Quem são? Aí vão duas amostras. Leia e comece a descobrir.

História

Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira; a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

A colherada estreita

Um fama descobriu que a virtude era um micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu de beber à sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: essa senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção de alpinistas perdidos, e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude à sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.

O fama refletiu largamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.

Para saber mais: Cortázar, um eterno cronópio

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