terça-feira, 20 de novembro de 2012

Diversão popular tem que ser perigosa

Em seu livro “Antologia Do Negro Brasileiro”, Edison Carneiro cita o Conde dos Arcos, que foi o último Vice-Rei do Estado do Brasil e Governador da Bahia, no século 19. Os proprietários de escravos desaprovavam os batuques dos negros. Seriam momentos roubados ao trabalho na lavoura. Mas o Conde dos Arcos discordava:

O governo (...) olha para os batuques como para um ato que obriga os negros, insensível e maquinalmente, de oito em oito dias, a renovar idéias de aversão recíproca que lhes eram naturais desde que nasceram (...). [Se] os dahomey vierem a ser irmão com os nagôs, os gêges com os haúças, os tapas com os ashantis, e assim os demais, grandíssimo e inevitável perigo desde então assombrará e desolará o Brasil. E quem haverá que duvide que a desgraça tem o poder de fraternizar os desgraçados.

Hoje, algumas festas ou divertimentos populares podem ter efeito parecido. É o caso das brigas entre torcidas ou em votações de escolas de samba. Lutas ligadas a tragédias sociais também podem ser transformadas em alegres feriados.

O Dia da Consciência Negra corre este risco. Nesta data, festividades oficiais podem dar a impressão de que a dívida histórica com o povo negro vem sendo saldada. Na verdade, acumula-se e aprofunda uma situação cada vez mais dolorida.

Mas, diferente do que pensava o Conde dos Arcos, momentos festivos podem fortalecer a luta dos explorados e humilhados. Desde que sejam organizados por nós e representem perigo para os poderosos. Reforcem o espírito de união, solidariedade, orgulho das tradições e respeito mútuo.

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