sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Mídia escrava

O texto abaixo foi escrito pouco antes das eleições de 2006. Sem dúvida, continua atual.

Em julho de 2006, a revista Carta Capital publicou uma reportagem sobre entregadoras de folhetos comerciais nos semáforos de São Paulo. As meninas recebem cerca de 19 reais por 8 horas de trabalho, já descontada a condução. Ficam em pé sob sol ou frio, com uma hora de almoço e possíveis 15 minutos de descanso a cada hora. Uma situação certamente agravada por eventuais insultos de alguns motoristas e passantes. Também há aquelas que são obrigadas ficar balançando bandeiras, muitas vezes em trajes apelativos.

Agora, entra em cena a nova legislação eleitoral. É que regras recém aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral determinam que os candidatos e partidos só podem utilizar faixas e cartazes em vias públicas se não ficarem fixos. O resultado são centenas de pessoas pelas ruas das grandes cidades segurando faixas, cartazes, placas de candidatos e candidatas. Mais gente que passa horas exposta aos efeitos do calor, frio e ao humor de quem passa. E quem mais se utiliza desse tipo de divulgação são exatamente os partidos ou candidaturas com maior poder econômico.

Alguém poderia argumentar que tais ocupações, pelo menos, trazem uma oportunidade de renda para os milhões de desempregados dos grandes centros. Pode ser, mas esse tipo de trabalho é uma marca da desigualdade brasileira. Isso somente acontece porque o preço da força de trabalho nacional é tão ridículo que empregadores em geral podem se utilizar desse tipo de mídia, que submete milhares de pessoas a condições humilhantes e prejudiciais à saúde. É a mídia quase escrava de nossas ruas.

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