O cientista político Marcos Nobre afirma que a direita brasileira atualmente divide-se entre uma ala “com medo” e outra “sem medo”. Esta última não teme se unir a fascistas como Bolsonaro. A primeira receia que o fanatismo bolsonarista abra brechas no sistema de dominação. Por isso, apoiou a única opção disponível capaz de enfrentar a extrema direita e, ao mesmo tempo, manter as mobilizações sociais em banho Maria.
Já André Singer, outro cientista político, chamou o projeto de esquerda dominante no País de lulismo. E sua essência seria um reformismo fraco, com mudanças graduais e limitadas, sem ameaças à ordem e em aliança com setores conservadores.
Mas veio a onda ultraconservadora, o golpe de 2016, a eleição de um presidente fascista com suas políticas sanitárias genocidas e pretensões golpistas de voltar ao poder. A resistência representada por Lula a tudo isso foi fundamental, mas deixou ainda mais ralo o tal reformismo fraco.
Felizmente, muitas vezes, a luta de classes assume as formas mais inesperadas. É o caso da campanha contra a escala de trabalho 6x1. Uma luta que não apenas ganhou enorme apoio popular, como foi protagonizada por duas pessoas negras: um trabalhador precarizado gay e uma deputada federal trans. Sob um conservadorismo extremado e a mais selvagem lógica neoliberal, trata-se de um exemplo evidente do que pode fazer um reformismo forte e destemido.
O trágico é que essa situação também revelou as enormes contradições no interior do campo antifascista. Demonstrou que o oposto do reformismo forte não é um reformismo fraco, mas uma esquerda com medo.
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Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
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23 de novembro de 2024
A luta contra a escala 6x1 e o reformismo sem medo
12 de novembro de 2024
VAT, 6x1 e capital canibal
A campanha pelo fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1) está bombando. Criada pelo vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ) foi encampada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que está tentando transformá-la em Proposta de Emenda à Constituição.
A proposta faz parte do movimento liderado por Azevedo, chamado Vida Além do Trabalho (VAT). Os operários do século passado tinham seu próprio VAT. Lutavam pelas 8 horas diárias de trabalho. Dessa maneira, sobrariam 8 horas para descanso e 8 horas para educação, conscientização e organização.
Mas a ocupação estafante e criadora de valor para o capital nunca se resumiu às horas exploradas pelos patrões, através de vínculos formais ou não.
Vida além do trabalho também são as ocupações domésticas, cujo principal objetivo é garantir a reprodução e manutenção da força de trabalho a ser explorada pelos patrões.
Vida além do trabalho é a destruição da natureza, provocando imensos prejuízos ambientais para a grande maioria, gerando enormes lucros para uma ínfima minoria.
Vida além do trabalho era a escravização humana nas antigas colônias e a atual precarização nas periferias do mundo, assegurando ganhos astronômicos para o grande capital.
Essas e outras esferas vitais são canibalizadas pelo grande capital para além de qualquer limite, sem qualquer contrapartida, reposição, compensação, tributação. Depois do trabalho, o que sobra não chega a ser vida.
Não há vida que escape à infinita e voraz gula do capital. É o que ensina, por exemplo, Nancy Fraser, ao mostrar em seu recente livro “Capitalismo canibal”, como é urgente matar o capitalismo de inanição. Voltaremos a comentá-lo, em breve.
Leia também: Jornada de trabalho e vampirização de almas
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