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7 de fevereiro de 2024

O Pravda enganando a perseguição czarista

No centenário da morte de Lênin, importante lembrar uma atividade que ele considerava fundamental para a construção de um partido revolucionário: o jornalismo militante.

Mas sob a ditadura czarista, publicar um diário proletário exigia muita astúcia. O relato abaixo está no artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, e refere-se ao período de 1912 a 1914:

O regulamento de imprensa da época exigia que os três primeiros exemplares de cada edição fossem enviados à censura. Os editores do Pravda tentavam ganhar o máximo de tempo possível entre o envio material e a muito provável chegada da polícia à gráfica. A lei não especificava limite de tempo máximo para o deslocamento entre a gráfica e a polícia. Assim, a tarefa diária de entregar os exemplares foi confiada a um trabalhador de 70 anos, cuja idade avançada era pretexto para a lentidão com que chegava ao seu destino. Depois de fazer sua entrega, o portador permanecia no escritório, fingindo descansar, mas observando tudo. Se depois de ler o Pravda, o inspetor passasse a examinar outro jornal, o emissário encerrava sua missão. Mas quando o censor telefonava para o distrito policial da jurisdição em que ficava a sede do jornal, o entregador saía rapidamente e chamava um táxi para avisar vigias que se postavam nos arredores da gráfica. Uma vez dado o alarme, todos começavam a trabalhar para retirar o máximo possível de exemplares. Quando a polícia chegava, a maior parte da edição já havia desaparecido, sobrando apenas uma quantidade mínima para que a manobra não fosse facilmente descoberta.

Não há movimento revolucionário, sem muita criatividade subversiva.

Leia também: Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

2 de fevereiro de 2024

Pravda: como fazer jornalismo revolucionário

Continuamos a destacar algumas informações retiradas do artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o Pravda, jornal do partido bolchevique.

Para escapar às perseguições da ditadura czarista, o jornal nomeava editores nominais que iam para a prisão no lugar dos editores efetivos. Eram aproximadamente quarenta militantes, muitos deles quase analfabetos. Nos primeiros anos de existência do Pravda, eles passaram muitos meses na prisão.

Metade dos exemplares era vendida nas ruas e metade nas fábricas. Nas grandes empresas de São Petersburgo, cada departamento tinha um responsável que distribuía o jornal, arrecadava recursos e mantinha contato com os editores. A distribuição do Pravda fora da cidade acontecia por meio de seis mil assinaturas postais, mas distribuí-las era complicado. Os exemplares eram enviados a cinco ou seis agências de correio diferentes, que eram trocadas diariamente para despistar a polícia. Além disso, pacotes do Pravda eram entregues às províncias por diversas rotas complexas. Membros do partido ou simpatizantes que trabalhavam nas ferrovias jogavam os fardos ao longo da rota para serem recolhidos por outros integrantes.

Eram cerca de 40 mil durante a semana e 60 mil aos sábados. Números impressionantes, especialmente porque o partido era ilegal. No entanto, Lênin escreveu um artigo em abril de 1914, dizendo:

Precisamos distribuir três, quatro, cinco vezes mais exemplares. Publicar um suplemento sindical e ter representantes de todos os sindicatos e grupos no conselho editorial. Lançar suplementos regionais (Moscou, Urais, Caucasianos, Bálticos, Ucranianos)...

Mas uma de suas maiores preocupações era garantir a participação regular dos trabalhadores no trabalho editorial.

Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário, dizia Lênin. Sem jornalismo revolucionário também não.

Leia também: Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

30 de janeiro de 2024

Jornalismo revolucionário: os oito nomes do Pravda

No centenário da morte de Lênin, voltamos ao artigo “Lenin’s Pravda”, de Tony Cliff, sobre o jornalismo revolucionário defendido pelo líder russo. Nele ficamos sabendo que o Pravda, principal jornal do partido bolchevique, mudou de nome oito vezes. As constantes alterações aconteciam devido à forte perseguição que o periódico sofria da ditadura czarista.

Frequentemente, as instalações do jornal eram invadidas, edições confiscadas, multas impostas, editores presos, jornaleiros assediados. Mesmo assim, foram publicados 645 números de 1912 a 1914, quando deu lugar a outros jornais até retornar após a revolução de 1917. Isto foi possível em grande parte devido à engenhosidade da equipe editorial para contornar as perseguições, ao apoio financeiro dos leitores, a lacunas na lei de imprensa e à ineficiência da polícia.

Uma linguagem codificada procurava evitar o confisco imediato das edições. No lugar do nome do partido, “subterrâneo”, “buraco” ou “velho”. O programa bolchevique, que defendia a república democrática, confisco das propriedades fundiárias e jornada máxima de 8 horas era chamado de “exigências de 1905” ou os “três pilares”. Um bolchevique era um “democrata consistente” ou um “marxista consistente”. Os trabalhadores mais militantes conseguiam decifrar essa linguagem sem maiores problemas.

Essas e outras dificuldades para fazer circular um periódico revolucionário em plena ditadura autocrática na Rússia do início do século passado deveriam servir de exemplo. As dificuldades e obstáculos atuais são bem diferentes e igualmente enormes, mas Lênin defendia que o trabalho revolucionário era resultado de intervenções concretas adaptadas às situações concretas, sejam elas quais fossem. Hoje, como na época de Lênin, não adianta tentar combinar com os russos.

Voltaremos ao tema.

Leia também: O jornalismo revolucionário segundo Lênin

25 de janeiro de 2024

O jornalismo revolucionário segundo Lênin

No mês do centenário da morte de Lênin, vale dar uma olhada em sua concepção de jornalismo revolucionário. O artigo “Lenin’s Pravda” de Tony Cliff, por exemplo, traz um trecho que diz:

O Pravda não era um jornal para trabalhadores; era um jornal dos trabalhadores. Era muito diferente de muitos outros jornais socialistas, escritos por um pequeno grupo de redatores brilhantes. Lenin dizia que nesses jornais não havia vestígios de iniciativa dos trabalhadores, ou de qualquer ligação com organizações da classe trabalhadora. No Pravda, ao contrário disso, mais de 11 mil cartas e notas de trabalhadores eram publicadas em um ano, média de 35 por dia.

Na passagem abaixo, é o próprio Lênin que deixa claro o que pensa sobre a função de um verdadeiro jornal operário:

Ao ler os relatos e as cartas dos trabalhadores de fábricas e escritórios em toda a Rússia, o público do Pravda, em sua maioria disperso e separado pelas grandes distâncias e severas condições geográficas da vida russa, conseguia ter uma ideia de como lutam os proletários dos vários ramos e localidades, assim como viam o despertar para a luta em defesa da democracia da classe trabalhadora.

Tudo isso pode cheirar a naftalina em pleno século 21, com seus meios de comunicação caóticos, mas sob firme controle de monopólios cada vez mais poderosos. No entanto, a situação na Rússia czarista, sob feroz repressão policial e pesada censura estatal, não era nem um pouco melhor que a nossa. Trata-se de encontrar formas de atuar nas condições concretas. De enfrentar o velho e fundamental desafio sobre o que fazer.

Leia também: As suspeitas sobre a morte de Lênin