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17 de novembro de 2020

Na China, socialismo de verdade, só de baixo para cima

Na China atual, mercado e Estado se complementam, diz Au Loong Yu, em seu livro “China: Um capitalismo burocrático”. Mas a verdade, afirma ele, é que, sob o atual regime, ambos são apenas instrumentos de exploração das massas trabalhadoras.

Por outro lado, a China apresenta uma característica importante. Na maioria dos países capitalistas, as esferas política e econômica são separadas uma da outra. Como resultado, as lutas econômicas dos trabalhadores tendem a permanecer setoriais e, geralmente, não políticas. Existe, portanto, a possibilidade de desenvolver um movimento sindical alienado da política. Na China, as duas esferas estão fundidas a tal ponto que a mão invisível do mercado é sempre apoiada pela bota visível do Estado, razão pela qual nem o simples sindicalismo independente e apolítico é tolerado.

É improvável que um movimento sindical de baixo para cima possa se desenvolver plenamente sem, ao mesmo tempo, conquistar liberdades fundamentais e, finalmente, a democratização do Estado. Isso dá um caráter radical a iniciativas sindicais pela base. Seus traços políticos e classistas podem se manifestar de forma mais direta.

O verdadeiro socialismo não será alcançado somente pelo desenvolvimento das forças produtivas. Socialismo é sinônimo principalmente de controle coletivo da produção, democracia política e redução do tempo de trabalho para dar aos trabalhadores condições de participar da administração da sociedade. Nenhum desses elementos está presente na China hoje.

Mas com meio bilhão de operários, há poucos lugares no mundo em que construir o verdadeiro socialismo seja tão possível como na China. Desde que, é claro, os trabalhadores chineses derrotem sua classe dominante e seus aliados do capitalismo ocidental.

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China: fale sobre socialismo, enquanto implanta o capitalismo

16 de novembro de 2020

China: fale sobre socialismo, enquanto implanta o capitalismo

Dizimar o movimento que ocupava a Praça da Paz Celestial não foi um arroubo de ferocidade do governo chinês. Aquilo que os manifestantes contestavam era estratégico para os burocratas no comando. É o que explica Au Loong Yu, autor do livro “China: Um capitalismo burocrático”, que estamos comentando.

Esmagada a resistência em 1989, diz ele, iniciou-se uma década marcada por um processo radical de reestruturação produtiva. Em 2001, 86% das empresas estatais haviam sido reestruturadas e 70% delas foram parcial ou totalmente privatizadas. Com isso, dezenas de milhões de trabalhadores das empresas estatais ou "coletivas" foram demitidos. Acabaram sendo redirecionados ao setor privado, com salários menores e menos direitos.

O PC sempre se recusou a admitir que estava privatizando. Uma anedota popular descrevia assim a política do partido: "O capitalismo pode ser implantado desde que você não fale sobre isso. Mas você pode falar à vontade sobre o socialismo, desde que nunca venha a implementá-lo."

Muitos ex-diretores de empresas estatais se tornaram proprietários ou gerentes das empresas privatizadas. Líderes do partido se transformaram em investidores em 95% das empresas municipais, nas grandes cidades, e em 97% daquelas localizadas em pequenas comunidades rurais.

Por outro lado, uma nova classe trabalhadora, composta por 250 milhões de migrantes rurais, se formou. A princípio, era um grande exército de trabalhadores sem conhecimento de seus direitos. Mas as contradições não tardaram a se tornar agudas. As greves cresceram em número e radicalidade.

Mas, por enquanto, a grande maioria dos conflitos tem se limitado aos locais de trabalho, sem questionamentos aos centros políticos do país, fortemente controlados pelo partido.

Continua...

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13 de novembro de 2020

O massacre da Praça da Paz Celestial

Em abril de 1989, estudantes de Pequim começaram a organizar manifestações contra a crise econômica provocada por medidas tomadas pelos dirigentes chineses. Em especial, dando mais espaço para as empresas privadas e cortes de direitos trabalhistas.

Em maio, a recém-formada Federação Autônoma dos Trabalhadores de Pequim divulga uma carta aberta, afirmando:

Avaliamos cuidadosamente a exploração dos trabalhadores. “O capital” de Marx nos deu um método para entender nossa situação. Do valor total da produção, deduzimos salários, despesas de investimento, previdência social, investimentos sociais necessários, depreciação de equipamentos e despesas para sua substituição. Para nossa surpresa, descobrimos que os burocratas devoram o resto do valor produzido pelo sangue e suor das pessoas.

 

Em 13 de maio, os estudantes ocupam a Praça da Paz Celestial. Dias depois, a Federação declara que, se as exigências dos estudantes não fossem atendidas em 24 horas, seria convocada uma greve geral. As exigências dos alunos são rejeitadas pelo governo e a lei marcial é estabelecida.

Os estudantes, porém, são contra a greve. O fato é que os dois grupos sociais foram incapazes de forjar uma forte aliança por causa da relutância dos estudantes. Somente no final de maio, quando a violência governamental aumentou, os estudantes permitiram que a federação dos trabalhadores se juntasse à ocupação.

Mas já era tarde. O município de Pequim instruiu todas as empresas a reduzir os salários dos participantes dos protestos. E em 4 de junho, ocorre o massacre da Praça da Paz Celestial, pondo fim a toda resistência.

Na próxima pílula, mais relatos como este, retirado do livro “China: um capitalismo de burocrático”, de Au Loom Yu.

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