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12 de maio de 2022

A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

Em 06/05/2022, o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi publicou um artigo no portal “La Jornada”. Ele começa dizendo:

Muitos dados apontam que as grandes empresas do complexo militar-industrial vêm obtendo lucros exorbitantes desde o início da invasão russa à Ucrânia. Mas outros dados afirmam o contrário. Dizem que a crise capitalista está se aprofundando: a ameaça de recessão nos Estados Unidos, o aumento dos preços em todo o mundo e as dificuldades da China em manter as cadeias globais de abastecimento, para citar alguns exemplos.

Em seguida, o autor afirma concordar com William I. Robinson, sociólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, segundo o qual, fica cada vez mais claro que as guerras ajudam o capitalismo a superar suas crises e desviam a atenção da deterioração da legitimidade do sistema.

No entanto, diz Zibechi:

...é provável que estejamos frente à radicalização das elites globais, que parecem dispostas a provocar um genocídio em massa contra uma parte da população do planeta, caso considerem que seus interesses estão em perigo.

Diante disso, o autor afirma que “devemos perder o medo da queda do sistema atual, que pode ser anárquica, mas não necessariamente desastrosa”. Mas encerra lamentando que falte à esquerda estratégias para enfrentar tal tarefa, “com a notável exceção do zapatismo”.

Os zapatistas protagonizaram a primeira grande reação popular à ofensiva neoliberal, desferida pouco depois do fim da União Soviética. Em 1994, os indígenas de Chiapas e Oaxaca pegaram em armas para defender seu território, valores e modos de vida. Já são quase 30 anos de resistência.

Há três décadas, eles estão mostrando o caminho.

Leia também: Guerra “inter-branca” e o estrangulamento das metrópoles

25 de março de 2022

O contrário da guerra não é a paz, mas o massacre

O livro “Estratégia socialista e arte militar”, de Emilio Albamonte e Matías Maiello é uma fraterna provocação à esquerda. Afinal, perguntam eles, nos tornamos pacifistas? Pior que isso, deixamos de discutir estratégia?

Grosseiramente falando, a diferença entre tática e estratégia é a mesma entre meios e fins. Mas, aparentemente, a esquerda vem concentrando tanto tempo e esforço nos meios que acabou esquecendo os fins a que eles devem servir.

Albamonte e Maiello utilizam a elaboração de Carl von Clausewitz como meio para discutir os fins defendidos por personalidades como Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Guevara e tantos outros. Todos eles também estudiosos da obra do grande estrategista militar prussiano. É famosa a frase em que Clausewitz define a guerra como “continuação da política por outros meios”. Em outras palavras, são os objetivos políticos, mais do que os militares, que devem predominar numa guerra.

Assim, nas sociedades de classe, o contrário do pacifismo não é a beligerância. É a consciência de que não se trata de debater se ações armadas acontecem ou não. Mas como os explorados, suas maiores vítimas, podem se defender delas. Afinal, no capitalismo, o contrário da guerra não é a paz, mas o massacre. A morte constante e massificada de pobres e não brancos. Das minorias e maiorias exploradas e discriminadas.

Guerrilhas, milícias populares, ações armadas. Nenhuma dessas formas de autodefesa popular deve ser um fim em si mesmo. Nosso objetivo é o socialismo. É uma sociedade justa, em que as ações bélicas pertençam a um triste passado. Admitido isso, nossas táticas não podem baixar a guarda frente à trágica violência do presente.

Até maio!

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A luta armada como fim em si mesmo
A sangrenta não-violência de Gandhi

24 de março de 2022

A luta armada como fim em si mesmo

“A tática ensina como usar as forças armadas nos confrontos e a estratégia, como usar os confrontos para atingir os objetivos da guerra”. Che Guevara começa um texto de 1962 com esta referência à definição de tática e estratégia de Clausewitz.

Em seu livro “Estratégia socialista e arte militar”, Emilio Albamonte e Matías Maiello apontam Guevara como um crítico radical do “evolucionismo” reformista, limitado ao parlamentarismo, à luta sindical, às mobilizações pacíficas e à colaboração de classes, sem perspectivas revolucionárias.

Mas o problema, dizem nossos autores, é que Guevara tende a desenvolver uma oposição mais ou menos mecânica entre reformismo-pacifismo versus armada-revolução. No entanto, é perfeitamente possível promover ações armadas sem objetivos revolucionários.

Na verdade, Guevara retomou a guerra popular prolongada defendida por Mao Tsé-Tung. Mas a vitória dos guerrilheiros cubanos teria levado à equivocada ideia de que a “luta armada”, por si só, garantiria o caráter revolucionário do processo. Os meios teriam tomado o lugar dos fins.

Uma consequência importante dessa concepção é uma teoria divorciada de problemas estratégicos reais. Por isso, dizem Albamonte e Maiello, na obra de Che não se encontram elaborações significativas sobre fenômenos como o movimento camponês real, a urbanização e expansão da classe trabalhadora entre as décadas de 1950 e 1960 ou o movimento sindical.

Essa característica se refletirá no amplo leque de organizações que, nas décadas de 1960 e 1970, transformaram a guerrilha em estratégia. Apesar de seu heroísmo, um erro que muitos deles pagaram com suas vidas.

Se a guerra é continuação da política, esta jamais pode ficar a reboque daquela.

Concluiremos esta série na próxima pílula.

Leia também: Bandeiras à prova de bala

23 de março de 2022

Bandeiras à prova de bala

Em momentos de ruptura do equilíbrio social e político, na medida em que os capitalistas modificam a correlação entre os elementos coercitivos e consensuais de sua dominação, a classe trabalhadora também deve fazê-lo.

No parágrafo acima de seu livro “Estratégia socialista e arte militar”, Emilio Albamonte e Matías Maiello estão se referindo ao duplo caráter da dominação de classe. O elemento consensual, conquistado através da hegemonia social e cultural, e a dimensão repressiva, em que pesam os instrumentos de coerção. Ambos convivem, claro. Mas quando o primeiro é insuficiente, o segundo se faz sentir de modo mais esmagador e explícito.

Eles citam Trotsky, que diz: “Os fascistas mostram audácia, saem às ruas, enfrentam a polícia, ameaçam fechar o parlamento. Isso impressiona o pequeno burguês desesperado”. Enquanto isso, continua ele, muitos dizem que a esquerda não deve assustar a classe média com a revolução porque ela abomina radicalismos.

O problema é que quando o pequeno proprietário perde a esperança, costuma se entregar facilmente às medidas mais extremas. Para Trotsky, a construção de uma aliança com os setores médios empobrecidos é fundamental. Mas desde que o proletariado mantenha sua independência de classe e aperfeiçoe seus mecanismos de autodefesa. Caso contrário, os setores médios acabam apoiando a repressão estatal e os atentados fascistas contra os trabalhadores.

Albamonte e Maiello citam ainda Carl Clausewitz, que diz que não se pode “perder de vista o inimigo para que, caso ele pegue sua espada de combate, não sejamos obrigados a nos defender com um estandarte”.

Ou seja, as bandeiras do proletariado podem ser muito bonitas, mas não são à prova de bala.

Leia também: Também na luta de classes, a melhor defesa é o ataque

22 de março de 2022

Também na luta de classes, a melhor defesa é o ataque

“A forma defensiva da guerra não é (...) um simples escudo, mas um escudo formado essencialmente por golpes desferidos com habilidade”, disse Carl Clausewitz em sua obra “Da Guerra”.

Emilio Albamonte e Matías Maiello citam o respeitado teórico militar em seu livro “Estratégia socialista e arte militar” para explicar como, durante a Revolução Russa, os bolcheviques souberam usar sua posição defensiva para golpear os setores vacilantes e conciliadores da esquerda russa.

Por exemplo, ao levantar a exigência junto àquelas lideranças no sentido de que rompessem com os ministros capitalistas e as potências imperialistas e tomassem o poder. Segundo essa tática, os revolucionários não participariam de tal governo, mas lutariam pelo poder conquistando a maioria nos sovietes. Ao mesmo tempo, sem dar apoio ao governo burguês que sucedeu ao monarquismo, lideraram a resistência a uma tentativa de golpe da extrema direita. Com isso, aproveitaram para armar o proletariado.

Nem Lênin nem Trotsky acreditavam que uma etapa democrática intermediária fosse possível sob o governo dos conciliadores. Mas, se algo assim fosse tentado, a classe trabalhadora estaria em melhores condições para lutar pelo poder operário. E se nada disso acontecesse, ainda assim, serviria para arrancar os trabalhadores da influência das direções conciliatórias. A ação dos bolcheviques durante a revolução de 1917 foi uma verdadeira escola de como lutar defensivamente, estando em minoria, para alcançar objetivos que minavam a força inimiga.

Essa importante lição, proveniente dos campos de batalha, mostra que estar na defensiva não pode ser pretexto para recuos ou rendição. Mesmo que se trate de uma mera disputa eleitoral. Menos ainda, lutando por votos com a extrema-direita.

Leia também: A revolução, o exército e as forças policiais

21 de março de 2022

A revolução, o exército e as forças policiais

Muita gente acha que os bolcheviques fizeram a revolução à frente de uma enorme máquina de guerra. Mas o Exército Vermelho foi formado somente após a tomada do poder, graças principalmente a Trotsky, que defendia a necessidade de preparar o novo regime para se defender militarmente do cerco imperialista e da contrarrevolução interna.

Mas, então, como os revolucionários enfrentaram as poderosas forças repressivas do antigo regime? Fazendo um longo e dedicado trabalho militante nos quartéis e nas trincheiras.

É preciso lembrar que o exército russo foi bastante ampliado para lutar na Primeira Guerra. Incluindo, a convocação de muitos camponeses. Gente que dificilmente entraria em contato com trabalhadores revolucionários em seus lugares de origem. Influenciados por eles, os soldados camponeses começaram a desertar para não morrer em uma guerra que não era sua. Ao mesmo tempo, levavam de volta para suas aldeias as propostas socialistas que conheceram nas trincheiras. Esse trabalho permitiu ganhar grandes parcelas das forças armadas para a revolução, ou, pelo menos, neutralizar sua atuação.

E quanto às forças policiais? No livro “Estratégia socialista e arte militar”, Emilio Albamonte e Matías Maiello citam um relato de Trotsky: “A polícia, diz ele, não tardou a desaparecer completamente do mapa”. Para os trabalhadores em luta, “os policiais eram inimigos cruéis, irreconciliáveis, odiados”. Não havia como pensar em conquistá-los. Falavam, inclusive, em açoitá-los ou matá-los.

Assim, no início da revolução de 1917, dizem nossos autores, enquanto o exército estava dividido, a polícia fora destruída. A intensa militarização das sociedades contemporâneas tornaria muito difícil adotar proposta semelhante em uma nova situação revolucionária. Mas fica a dica.

Continua.

Leia também: Trabalhadores armados no processo revolucionário russo

18 de março de 2022

Trabalhadores armados no processo revolucionário russo

Em situações de guerra civil, muitas vezes ocorre um armamento generalizado da população. Cada lado do conflito procura armar o máximo de apoiadores. O problema ocorre na hora de desarmá-los. O livro “Estratégia socialista e arte militar”, de Emilio Albamonte e Matías Maiello, discute as contradições dessa situação.

Na Rússia, durante o processo revolucionário de 1917, a burguesia foi obrigada a permitir o armamento da população para superar a crise do czarismo. A partir daí, surgiram dois modelos de milícias populares. No modelo “democrático europeu”, elas eram heterogêneas do ponto de vista da composição de classe. Substituíam a polícia na manutenção da ordem e estavam sob o controle do Governo Provisório. Já as milícias operárias eram unidades formadas a partir das necessidades de autodefesa dos trabalhadores e respondiam aos comitês de fábrica. Era a Guarda Vermelha, que tirava o sono das classes dominantes.

Essa diferença entre as formas de organização militar popular está longe de ser desprezível. Um exemplo de “milícia cidadã” foi a Guarda de Assalto, surgida durante a Revolução Espanhola. Formada em 1932, acabou desempenhando um papel vergonhoso na repressão ao movimento operário entre 1936 e 1937.

No processo revolucionário russo, a Guarda Vermelha resistiu às tentativas de liquidá-la e manteve sua independência. Até que durante a tentativa de golpe do general Kornilov, no início de setembro, sua situação deu uma guinada. Passou da “semilegalidade” à legitimação junto aos trabalhadores, por sua atuação na derrota da contrarrevolução. Logo depois, se tornou a principal força armada dos sovietes.

Mas e quanto à polícia e ao exército regulares? É o que veremos na próxima pílula.

Leia mais: Em tempos de paz, escolas de guerra revolucionária

17 de março de 2022

Em tempos de paz, escolas de guerra revolucionária

Os conflitos da luta de classes em tempos de paz são fundamentais para as concepções estratégicas de Lênin. Ele os concebe, já em 1901, como “escolas de guerra”. É assim que analisa, por exemplo, as greves combativas: os trabalhadores não conhecem as leis e não convivem com autoridades, mas quando iniciam uma paralisação, enfrentam forças repressoras, que logo os ensinam muito sobre o caráter de classe das leis e autoridades.

Lênin observa que "a 'escola da guerra' ainda não é a própria guerra". No entanto, atribuiu-lhe uma importância fundamental. Por um lado, porque obriga o partido revolucionário a vincular-se à vanguarda operária. Por outro, porque permite que os revolucionários adquiram "virtudes guerreiras".

Uma abordagem semelhante foi realizada por Clausewitz em relação à possibilidade de conquistar hábitos de combate fora da própria guerra: manobras em que elementos como perigo, acaso, fadiga exercitam o julgamento, a capacidade de avaliação e até a determinação de comandantes e combatentes.

As “escolas de guerra” foram essenciais na preparação dos bolcheviques para a situação da Rússia durante a Primeira Guerra. Teve sua máxima expressão em fevereiro de 1917, quando aqueles que Trotsky chamou de “operários treinados por Lênin” lideraram a insurreição que derrubou o czarismo sem a anuência do próprio Lênin ou da maioria da direção do partido, que estava no exílio.

Escolas de guerra socialistas devem formar militantes capazes de agir e pensar com independência. Do contrário, eles serão capazes de fazer qualquer coisa, menos uma revolução.

As informações acima estão no livro “Estratégia socialista e arte militar”, de Emilio Albamonte e Matías Maiello. Na próxima pílula, continuaremos a comentá-lo.

Leia também: A revolução como guerra civil

16 de março de 2022

A revolução como guerra civil

Para os marxistas, revoluções são uma forma de guerra civil. Não à toa, o relato de Marx sobre a Comuna de Paris tem como título “A Guerra Civil na França”.

É esta problemática que abordam Emilio Albamonte e Matías Maiello no livro “Estratégia socialista e arte militar”. Durante a Primeira Guerra, dizem eles, Lênin deixou muito claro: somente a revolução poderia parar a guerra. Essa conclusão foi baseada em uma fórmula utilizada pelo respeitado teórico prussiano Carl Clausewitz. Para este, a guerra era a continuação por meios violentos da política dos estados imperialistas em tempos de paz. Na formulação leninista, a única maneira eficaz de lidar com esses conflitos era derrotar a política que as originou. E para fazê-lo era fundamental travar uma guerra contra a ordem dominante no interior de cada país.

Essa postura inspirou a política que Lênin chamou de “derrotismo”. Ela consistia em rejeitar a "paz" que os diferentes estados imperialistas queriam impor. A classe trabalhadora não deveria abandonar suas lutas para atender as prioridades militares de seus opressores e exploradores. Nesse sentido, a derrota do próprio país seria um “mal menor” diante da necessidade de desenvolver a luta de classes no sentido de transformá-la em uma guerra revolucionária.

E nos tempos de paz? Para Lênin, na ausência de confrontações bélicas, os conflitos da luta de classes seriam “escolas de guerra”. Ou seja, os confrontos contra o capital devem servir como preparação e ensaio para aqueles momentos de guerra de classes que dificilmente deixam de acontecer.

É o que veremos na próxima aula. Quer dizer, pílula.

Leia também: O socialismo e a questão militar

15 de março de 2022

O socialismo e a questão militar

O dever de um partido revolucionário é prever a inevitabilidade da transformação da política em conflito armado declarado e se preparar com todas as suas forças para esse momento, assim como o fazem as classes dominantes.

A frase acima é de Leon Trotsky e está no livro “Estratégia socialista e arte militar”, de Emilio Albamonte e Matías Maiello. Ela e o título do livro devem ser suficientes para deixar claro qual a grande preocupação dos autores.

Para muitos da esquerda, falar em resistência armada contra as classes dominantes pode soar anacrônico. Mas basta olhar em volta com atenção e sob a ótica dos interesses de classe dos dominados para considerar a questão mais do que atual. Principalmente, em plena guerra da Ucrânia.

Os autores identificam no marxismo contemporâneo um “pacifismo” incompatível com suas aspirações revolucionárias. Por isso, acham necessário restaurar a relação “entre estratégia, marxismo e questão militar”.

Albamonte e Maiello são do Partido Socialista dos Trabalhadores na Argentina e da Fração Trotskista da Quarta Internacional. Portanto, a principal referência da obra é Trotsky. Mas em diálogo com Marx, Engels, Lênin, Rosa, Gramsci, Mao e Che Guevara.

Porém, a figura teórica central do livro é Carl Phillip Clausewitz, general prussiano que se destacou como grande estrategista e estudioso da guerra moderna, tendo sido estudado por Marx, Engels e muitos de seus seguidores. Em sua obra “Da Guerra”, aparece a famosa definição da guerra como “continuação da política por outros meios". Frase que Trotsky adaptou para o âmbito da luta revolucionária. Nesta, diz ele, a revolução torna-se guerra civil e fase violenta da luta de classes.

Continua.

Leia também: Gandhi e Lênin: uma comparação

26 de janeiro de 2021

A vergonhosa moderação póstuma imposta a Engels

Uma das maiores polêmicas envolvendo os escritos de Engels diz respeito ao que ficou conhecido como seu “testamento”. Na verdade, trata-se da introdução que ele escreveu, em 1895, ano de sua morte, para o livro “As Lutas de Classes na França”, de Marx.

Em um trecho sobre o aspecto militar das insurreições populares, Engels afirma:

Em 1848 havia a espingarda de percussão; hoje existe a espingarda de repetição de reduzido calibre que alcança quatro vezes mais longe, é dez vezes mais precisa e dez vezes mais rápida do que aquela. Antes havia os projéteis esféricos maciços e as balas de artilharia de efeito relativamente fraco; hoje espoletas de percussão das quais uma basta para fazer voar em pedaços a melhor das barricadas. Antes havia a picareta dos sapadores para deitar abaixo as paredes; hoje os cartuchos de dinamite.

“Do lado dos insurretos pioraram todas as condições”, dizia Engels. Pronto. Foi o suficiente para que essas afirmações fossem utilizadas para justificar a necessidade de substituir os métodos de luta mais radicais por batalhas parlamentares.

Tudo começou quando Richard Fischer, líder do partido alemão e responsável pelas publicações do partido, pediu a Engels para atenuar o tom do texto. A preocupação de Fischer era com as recentes leis de repressão impostas por Bismarck. Engels concordou.

Mas a versão finalmente publicada sofreu outros cortes feitos à revelia do autor. Mutilada desse modo, a introdução tornou-se uma defesa da “legalidade a qualquer preço”, como escreveu Engels, muito descontente, em carta ao editor.

Na próxima pílula, veremos como terminou essa novela. Se é que terminou.

Leia também: Engels: de mulherengo a feminista

24 de junho de 2020

Antifascismo cotidiano e anticapitalismo radical

Os antifascistas não defendem a violência como tática única em seu combate à extrema-direita. Este é um dos principais pontos ressaltados por Mark Bray em seu livro “Antifa - O Manual Antifascista”.

A quem recomenda apenas ignorar os fascistas, Bray lembra que “quando eles chegam com paus, chaves de fenda ou facas, não é tão simples assim”. Por outro lado, como diz uma militante antifascista: “Se tudo o que você tem é um martelo, todos os seus problemas parecerão pregos”.

Daí, a importância daquilo que o livro chama de “antifascismo cotidiano”. Trata-se de aplicar uma visão antifascista a qualquer tipo de interação com os fascistas, todos os dias e em qualquer lugar. Desse modo:
Se a meta política antifascista normal é fazer com que os nazistas não permaneçam tranquilamente em público, o objetivo do antifascismo cotidiano é aumentar o custo social do comportamento opressor a tal ponto que aqueles que o promovem não vejam outra opção que não seja a de recuar e se esconder.
É como diz o antifascista italiano Niccolò Garufi:
Sempre defendi uma guerra total contra o fascismo, mas não no sentido militar. Você precisa estar pronto para atacar e se defender. Você tem que estar preparado, mas se trata principalmente de uma luta cultural, porque o fascismo cresce na classe trabalhadora. Temos que estar presentes na classe trabalhadora, no movimento estudantil, na organização de trabalhadores na comunidade e na construção de redes de solidariedade.
Mas tudo isso precisa ser orientado por uma visão radicalmente crítica à sociedade que torna o fascismo possível. Ou seja, é preciso ser radicalmente anticapitalista.

Leia também: Fantifas: as feministas antifascistas

22 de junho de 2020

“Bacurau”: porque é preciso tirar nossas armas do museu

Uma cena de “Bacurau” foi muito lembrada quando a quarentena começou. É o momento em que o prefeito visita o vilarejo e a população, revoltada com suas pilantragens, tranca-se em casa, deixando as ruas desertas.

O filme foi lançado em 2019, antes da pandemia. Mas esse é apenas um de seus momentos que tem ares proféticos. Em outra cena, vários caixões funerários aparecem espalhados em uma estrada após o caminhão que os transportava ter tombado.

A presença na trama de caçadores estrangeiros que se divertem matando a gente pobre do sertão também parecia alertar para o que estava para acontecer no País. E não era a pandemia, claro. Era a chegada ao poder de defensores da morte como política de governo.

A produção de Bacurau teve início muito antes de que a eleição de Bolsonaro se mostrasse possível. Mas a onda ultraconservadora que tomava conta do país já era bastante visível. Atentos a esse momento, os realizadores do filme deram seu recado. A reação dos moradores do vilarejo teve a radicalidade necessária. Foi proporcional ao extremismo daqueles que os atacavam.

Para se defender, o povo de Bacurau lembrou-se de sua história de luta. Resgatou suas antigas armas, esquecidas no museu da cidade. No triste Brasil real em que vivemos, muitas das forças populares também abandonaram seus arsenais. Passaram a confiar em governos, parlamentos e tribunais para garantir-lhes justiça. Mas jamais saíram da linha de tiro.

Dos quilombos aos assentamentos. De Canudos às greves gerais. Da resistência anticolonial às ocupações urbanas. Enquanto a injustiça e a morte governarem, o lugar de nossas armas nunca será em museus.

Leia também: Bacurau ou o apocalipse programado

16 de junho de 2020

Sobre estátuas e monumentos ao fascismo

Entrar em um lugar chamado “Senzala” para tomar um café é a mesma coisa que um judeu entrar em um lugar chamado Auschwitz para dormir um pouquinho.
A frase acima é de Caê Vasconcelos em reportagem sobre a recente onda de destruição de estátuas que homenageavam escravizadores, torturadores e assassinos de negros e indígenas, na Europa e Estados Unidos. Por aqui, a estátua de Borba Gato está na mira dos movimentos antirracistas.

As palavras de Caê mostram que o racismo não se limita aos monumentos. E a comparação com o famoso campo de concentração nazista está longe de ser exagerada.

Entre as principais características do fascismo estão: eliminação ou escravização daqueles considerados de raça ou cultura inferior. Roubo de seus bens e territórios. Violência desmedida contra todos os que contestam o domínio branco. Glorificação de uma pátria que acolhe apenas o um “povo eleito”. Perseguição sem tréguas a quem considera humanos e dignos de respeito e direito à liberdade todas as pessoas.

Mas os elementos acima não surgiram na Itália fascista ou na Alemanha nazista. Muito antes disso, os impérios coloniais já praticavam o fascismo sobre os povos não europeus.

Foi somente quando este dispositivo diabólico se manifestou no interior dos próprios impérios e provocou as maiores matanças da história que passou a ser considerado uma aberração a ser derrotada. Ainda assim, jamais desapareceu porque funciona como dispositivo de segurança do sistema injusto que o criou.

O fascismo que precisamos derrotar não é somente aquele que alguns brancos poderosos fingem combater. É também o dos ídolos sangrentos aos quais eles sacrificam milhões de vidas há séculos.

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4 de fevereiro de 2020

Como combater o fascismo nas ruas

Vejamos o que fala o livro “Fascism: Theory and Practice”, de Dave Renton, sobre a ocupação violenta das ruas pelos fascistas.

Marchas, intimidações físicas e grandes manifestações são muito importantes para os fascistas. Portanto, é principalmente nessa arena que é preciso dar-lhes combate.

O próprio Hitler chegou a alertar:

Apenas uma coisa poderia nos ter detido - se nossos inimigos tivessem entendido nossos princípios e, desde o primeiro dia, tivessem destruído com a máxima brutalidade o núcleo de nosso movimento.

Onde os fascistas ainda são pequenos, isolados e rachados, seria um desperdício de energia perseguir apenas alguns deles. Mas onde já estão tentando controlar as ruas, é necessário confrontá-los.

Confrontos físicos, no entanto, devem ser entendidos em sua dimensão específica. A violência não faz parte da visão de mundo dos antifascistas. Nós não procuramos criar uma sociedade onde a violência seja natural ou comum. Glorificar a violência, jamais.

Por esses motivos, o confronto físico contra o fascismo deve abranger um grande número, deve ser primordialmente não violento e não deve envolver apenas antifascistas “profissionais”. O objetivo principal é construir uma oposição verdadeiramente de massa.

Renton cita como exemplo dessa oposição de massa o Rock Contra o Racismo e a Liga Antinazista, movimentos nascidos em 1979, quando o fascismo ressurgia forte na Inglaterra.

Essas frentes uniam comunistas, socialistas, trabalhistas, punks, militantes negros e sindicalistas. Suas atividades reuniam dezenas de milhares e, nas eleições daquele ano, o partido fascista não ultrapassou 1,5% dos votos.

Ou seja, derrotar os fascistas é possível, desde que não entreguemos a eles justamente o palco principal de nossas maiores vitórias: as ruas.

Leia também:  Como combater o fascismo no campo das ideias

1 de outubro de 2019

Violência na história: a parteira e o carrasco

Para Walter Scheidel, a violência seria a grande responsável pelos raros períodos de diminuição da desigualdade social na história humana. Esta é a tese central de seu livro “A Grande Niveladora: Violência e a história da desigualdade da Idade da Pedra ao século 21”, sem edição no Brasil.

Marx dizia que a violência é “a parteira da história”. A afirmação faz todo sentido desde que feitas algumas considerações.

Nascimentos podem ocorrer sem parteiras, mas são impossíveis sem a mãe. E nesse caso o papel cabe à espécie humana, destinada a parir sua própria história. Além disso, fazer história para Marx é deixar para trás a pré-história da exploração e opressão das grandes maiorias pelas minorias. É fazer a espécie se reconhecer como digna de si mesma.

A igualdade social a que Sheidel se refere manifestou-se, geralmente, como colapsos sociais que resultaram de acontecimentos que fugiram ao controle humano: guerras, doenças, barbárie política.

Somente na modernidade, a busca pela igualdade social ganhou caráter consciente e foi entendido como direito a ser estendido ao conjunto da espécie. E apenas no século 20, essa busca foi assumida pelos únicos setores capazes de cumprir essa tarefa: os explorados, responsáveis pela subsistência do conjunto da humanidade, e suas revoluções transformadoras.

A maioria das revoluções comunistas foram iniciadas quase sem violência. Foi a reação conservadora a elas que provocou banhos de sangue e pariu ditaduras políticas. Foram tentativas de elevar a existência humana acima do rio bárbaro da história das sociedades de classes, logo afogadas.

Infelizmente, a parteira da história continua sendo importante porque à beira do leito materno há um carrasco.

Leia também: O quinto cavaleiro do apocalipse nivelador

30 de setembro de 2019

Possíveis relações entre riqueza concentrada e guilhotinas

Todo dia, aeronaves do modelo Global 7000 [para 10 a 19 passageiros], Gulfstream G650 [11 a 18 passageiros] e até Boeings 737 decolam com apenas um passageiro, a maior parte a caminho dos EUA e da Rússia.

Esta mensagem de um trabalhador aeroportuário inglês foi publicada por George Monbiot, militante ambientalista do Reino Unido, em um artigo disponível no portal Outras Palavras.

O articulista lembra que esse Boeing 737 ocupado apenas por seu proprietário pode transportar mais 173 passageiros e consome cerca de 25 mil litros de combustível. Energia suficiente para abastecer uma pequena cidade africana por um ano.

Em seu destino final esses passageiros solitários certamente se acomodarão em supercasas e passearão em superiates, que podem queimar 500 litros de diesel por hora.

Por isso, continua Monbiot:

Não deveria nos surpreender o fato de que quando a Google articulou uma reunião dos ricos & famosos no resort de Verdura, na Sicília, em julho, para discutir o colapso climático, seus delegados chegaram em 114 jatos privados e em uma frota de megaiates, e dirigiram pela ilha com seus supercarros.

É devido a absurdos como esses que a filósofa belga Ingrid Robeyns criou o conceito de “limitismo”, diz o articulista. Para ela, da mesma forma que existe uma linha da pobreza, abaixo da qual ninguém pode permanecer, deveríamos criar uma linha da riqueza, acima da qual ninguém poderia subir.

Monbiot avalia que aprovar uma lei como essa seria considerada a maior blasfêmia já cometida em muitas décadas. E ele tem toda razão. Então, blasfêmia por blasfêmia, talvez fosse melhor apelar logo para uma guilhotina bem afiada.

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Inteligência Artificial e burrice ambiental
Como faz falta uma boa guilhotina

19 de setembro de 2019

O nivelamento social precedido pela barbárie

O Estado de Bem-Estar Social na Europa do Pós-Guerra seria um exemplo claro dos efeitos de nivelação social provocados pela guerra. Pelo menos, segundo o historiador Walter Scheidel, em seu livro “A Grande Niveladora”.

A Segunda Guerra exigiu imensos sacrifícios humanos e radicalizou as contradições sociais em cada país em que ocorreu. Também fez surgir a ameaça soviética ao domínio imperialista ocidental. Diante disso, prevaleceu o princípio da entrega de alguns anéis para salvar os dedos.

Mas o caso do Japão é outro exemplo importante. Terminada a guerra, o país foi ocupado por forças estadunidenses. Entre as medidas impostas pelos invasores, reforma agrária, liberdade de organização sindical, direito de greve, desconcentração do capital em poder da burguesia tradicional japonesa e impostos sobre os mais ricos.

Em mensagem pelo Ano Novo de 1948, o chefe das tropas invasoras, general MacArthur, declarou que sua missão no Japão era desmontar um sistema controlado “por uma minoria de famílias feudais e explorado em seu benefício exclusivo”.

Por trás das belas palavras e das medidas aparentemente louváveis da ocupação estadunidense, um grande objetivo: quebrar o sistema econômico que permitiu ao Japão montar sua máquina de guerra e impedir que o país voltasse a ameaçar os interesses ianques.

O autor parece acertar ao apontar a guerra como um importante fator de diminuição das injustiças sociais no Japão. Mas a um custo em vidas extremamente elevado, incluindo um covarde bombardeio nuclear.

Scheidel não chega a afirmar isso, mas o caso japonês é mais uma demonstração de que qualquer diminuição da desigualdade social sob o capitalismo costuma ser precedida pela mais terrível barbárie.

Leia também: A guerra como fator de igualdade social

18 de setembro de 2019

A guerra como fator de igualdade social

Em seu livro “A Grande Niveladora”, Walter Scheidel afirma que a violência seria a maior responsável pelos episódios de diminuição da desigualdade social na história humana.

Ela se manifestaria na forma de guerras, epidemias, colapso estatal e revoluções transformadoras. Seriam os quatro cavaleiros do apocalipse da nivelação social.

Segundo o autor, o papel da guerra é mais decisivo nas sociedades modernas devido ao recrutamento em massa, fenômeno histórico novo.

O alistamento generalizado leva grande parte da população a sacrificar suas vidas. Diante disso, os setores dominantes são obrigados a pagar mais impostos e aceitar políticas governamentais mais distributivas.

Mas outra das consequências das guerras modernas é a democratização. Para explicar isso, Scheidel cita Max Weber:

A disciplina militar significou o triunfo da democracia, porque a comunidade desejava e foi compelida a garantir a cooperação das massas não-aristocráticas e, portanto, colocar em suas mãos armas e, juntamente com o poder das armas, é preciso estender direitos políticos. (História Geral da Economia - 1923)

De fato, a maioria das guerras modernas ocorre devido a choques surgidos entre setores da própria classe dominante, seja em nível nacional ou mundial. Para resolver o conflito, as facções ou governos envolvidos utilizam a população como bucha de canhão. Mas ao fazer isso, são obrigados a armá-la.

Terminada a guerra, é preciso desarmar os dominados antes que acabem se voltando contra aqueles que os enviaram para a morte. A solução passa por um afrouxamento da dominação política e melhores condições de vida.

Resumindo grosseiramente, justiça social sob o capitalismo dificilmente acontece sem o sacrifício de muitas vidas e o dedo popular no gatilho.

17 de setembro de 2019

A violência como fator de nivelamento social

A violência seria a grande responsável pelos raros períodos de diminuição da desigualdade social na história humana.

Esta é a hipótese que o historiador austríaco Walter Scheidel defende em seu livro “A Grande Niveladora: Violência e a história da desigualdade da Idade da Pedra ao século 21”, sem edição no Brasil.

Como se vê pelo título, trata-se de um levantamento histórico tão extenso quanto ousado. Mas muitas observações e conclusões convidam a refletir sobre certos fenômenos sociais e históricos.

É o caso do desenvolvimento das armas como importante fator na diminuição da truculência social entre os mais antigos agrupamentos humanos.

O historiador admite que alterações fisiológicas e mentais sofridas por nossa espécie teriam diminuído o peso da agressividade egoísta frente à colaboração solidária. Mas considera mais importante o papel de inovações na aplicação da violência.

É o caso das armas, cujo surgimento teria permitido aos membros mais fracos das primeiras comunidades humanas imporem-se aos mais fortes.

No lugar da luta corpo a corpo, em que o tamanho físico é decisivo, o combate à distância por meio de armas como as atiradeiras. Não há melhor exemplo que o de Davi abatendo Golias.

Outro elemento importante foi a elaboração de estratégias bélicas pensadas e executadas coletivamente pelos membros de menor envergadura para derrotar indivíduos grandes, mas isolados.

Eram os inícios da política como ciência. Antes como agora, muito relacionada à violência.

O historiador cita muitas evidências em favor de sua tese. Voltaremos a elas nas próximas pílulas.

Mas antes uma advertência: maior nivelamento social nem sempre é sinônimo de bem-estar para todos. Também pode significar colapso civilizacional generalizado.

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