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18 de março de 2025

Naomi Klein e o espelhamento fascista

O mais recente livro de Naomi Klein chama-se “Doppelgänger”, uma palavra alemã para o fenômeno em que uma pessoa encontra uma sósia sua, só que com atitudes e valores opostos.

No caso de Naomi, seu problema é ser xará de Naomi Wolf. Uma acadêmica que iniciou sua carreira criticando o capitalismo, mas se tornou seguidora de Donald Trump.

A coincidência dos nomes foi turbinada pelas redes virtuais. Klein passou a ter suas firmes posições de esquerda confundidas com as de Wolf. Difícil imaginar algo mais assustador.

Mas isso só pôde acontecer porque Wolf espelha e distorce sua retórica antissistema para defender posições de extrema-direita. Não à toa, o título complementar do livro de Klein é “Uma viagem através do Mundo-Espelho”.

Em um trecho, ela diz que estamos vivendo em:

... um mundo refletido num espelho no qual a sociedade é dividida em duas e cada lado se define como o oposto do outro: o que quer que um lado diga e acredite, o outro parece forçado a dizer e acreditar exatamente o oposto.

Àquilo que chamamos de “polarização política” Naomi dá um caráter mais preciso ao tratá-la como espelhamento.

O espelhamento é uma especialidade fascista. Foi assim quando Mussolini imitou métodos de agitação que aprendeu quando era militante do partido socialista italiano. O mesmo aconteceu quando a palavra “socialista” foi incluída no nome do Partido Nacional-Socialista alemão.

A extrema-direita espelha e distorce os valores socialistas para instrumentalizar a justa ira dos trabalhadores contra sua situação social em favor do capitalismo.

Quebrar esses espelhos é um dos nossos grandes desafios.

Leia também:  A origem fascista do nazismo de esquerda

14 de março de 2025

Estados Unidos: o Estado a serviço do fascismo

Está no Facebook o artigo “Hoje os servidores públicos norte americanos e depois nós: efeito Orloff”, de Ricardo Queiroz. Começa assim:

Trump e Musk não estão apenas desmantelando o Estado americano. Estão construindo um modelo. Um protótipo. Um experimento de laboratório que a direita internacional poderá replicar onde for conveniente. O que acontece hoje nos EUA não é uma exceção: é um ensaio. E a intenção é clara – transformar a destruição do serviço público em um espetáculo bem-sucedido, pronto para ser exportado.

O texto oferece um bom pretexto para combater o mito de que o fascismo defende a estatização generalizada da economia. O fato é que os regimes fascistas na Itália e na Alemanha privatizaram várias empresas estatais, logo que chegaram ao poder. Era preciso agradecer o apoio que receberam das burguesias italiana e alemã, entregando-lhes o patrimônio público.

Estatizações estão muito longe de ser a solução para as profundas contradições da sociedade capitalista. Mas a entrega do patrimônio público aos grandes predadores do mercado é muito pior.

Segundo Queiroz, abandonar o Estado “à sanha privatista de Trump e Musk é aceitar a falácia de que a destruição do público tornará tudo mais eficiente. Não tornará”, diz ele. Não é bem assim. A “destruição do público” pode trazer mais eficiência, sim. Mas a eficiência a serviço de um Estado voltado exclusivamente aos interesses das classes dominantes, ainda mais repressivo em relação à organização política dos explorados e oprimidos e apostando pesado em políticas socialmente genocidas e ecologicamente apocalípticas.

A situação é assustadora. O fascismo está voltando com tudo em pleno centro do capitalismo mundial.

Leia também: O tudo ou nada de Trump

11 de fevereiro de 2025

Sociedade protetora do capitalismo fóssil

Em 1927, um manifesto chamado “Por uma sociedade de proteção às máquinas” foi publicado por Fedele Azari, pintor e aviador italiano. Integrante do futurismo, movimento artístico surgido na Itália no início do século passado, Azari cultuava as máquinas a ponto de defender a criação de uma associação em sua defesa, inspirada nas associações protetoras dos animais.

Entre os “delitos mais comuns” denunciados por Azari, estava, por exemplo, “acelerar exagerada e repetidamente, sem necessidade, um motor”, comparando esse comportamento ao ato de “chicotear um cavalo”.

Daí a urgente necessidade de agir com “o propósito de proteger e fazer respeitar a vida e o ritmo das máquinas e especialmente dos motores, que dentre as máquinas são os mais sociáveis”, diz o manifesto.

Mas Azari também antecipou alguns desenvolvimentos tecnológicos que na época estavam apenas iniciando. “Temos máquinas falantes”, dizia ele. “Máquinas que raciocinam”, “cérebros de aço”. Além disso, continua, “a telemecânica nos permite dirigir ou fazer voar, sem piloto, automóveis e aviões”. Assim, profetiza o autor, “no futuro todos estes mecanismos serão acoplados e combinados e criar-se-ão máquinas que, após terem recebido instruções verbais, irão executar determinados trabalhos com a máxima precisão e com constância louvável”.

Os futuristas eram grandes entusiastas do fascismo, mas não há evidência desse tipo de simpatia por parte de Azari. De qualquer maneira, tanto apreço pelas máquinas demonstrava uma submissão patológica ao processo de combustão que viria a ameaçar grande parte da vida no planeta um século depois. E impossibilitou que o autor do manifesto compreendesse que o capitalismo fóssil é acima de tudo um exterminador de futuros.

Leia também: No capitalismo fóssil, Hades no comando

6 de fevereiro de 2025

Zuckerberg, Musk, Bezos têm razões

Ao se negar a controlar os algoritmos de ódio e discriminação de suas redes virtuais, o proprietário da Meta faz o que qualquer capitalista faz. Cuida de seus lucros. Ao morder a mão do estado que o alimentou, promovendo o desmonte das estruturas públicas que não o interessam, Musk faz o mesmo.

Não peçam aos donos ou acionistas majoritários das petroleiras que abram mão dos enormes lucros que conseguem explorando combustível fóssil para salvar grande parte da humanidade do colapso climático. Isso não faz sentido tanto quanto pedir algo semelhante a Zuckerberg e Musk, em nome de salvar a “democracia” ou respeitar o bem coletivo.

A presença dos dois, mais Bezos e executivos da Microsoft, Apple e Google na posse de Trump é mais do que esclarecedora. Todos eles têm razão. Ou melhor, todos eles têm as suas razões. As razões da acumulação do capital, da opressão e ataques aos setores minoritários ou minorizados, da exploração econômica, da destruição bélica e da espoliação territorial, cultural, mineral, energética e ambiental dos países periféricos.

Ao mesmo tempo, em relação aos interesses da enorme maioria da humanidade e de grande parte da vida no planeta, todos eles estão completamente errados. O gesto nazista do dono da X não deixa dúvidas sobre isso e o torna representante legítimo e pleno de seus colegas bilionários e do governo a que eles servem e do qual se servem.

Leia também: O imperialismo na fase digital do capitalismo

5 de fevereiro de 2025

Jus soli, jus sanguinis e racismo sanguinário

“Jus soli” é uma expressão latina que significa "direito de solo" e indica um princípio pelo qual uma nacionalidade pode ser atribuída a um indivíduo de acordo com seu lugar de nascimento.

O jus soli contrapõe-se ao “jus sanguinis” que significa "direito de sangue". Trata-se do princípio pelo qual a nacionalidade é determinada ou adquirida pela nacionalidade de um ou de ambos os progenitores.

Os esclarecimentos acima estão na Wikipédia e são necessários para explicar por que Donald Trump anunciou que pretendia revogar a nacionalidade de filhos de imigrantes sem cidadania que nasceram nos Estados Unidos. Ou seja, o presidente estadunidense pretendia adotar o "direito de sangue" como única forma de permitir a concessão de cidadania a imigrantes.

Não deu certo porque há um princípio equivalente ao “jus soli” na Constituição estadunidense. Mas as ameaças não levadas à frente por Trump não costumam gerar frustrações entre seus seguidores. Ao contrário, acabam por inflamar neles mais racismo e xenofobia. A discriminação racial que ele não consegue incorporar na lei insufla ainda mais o ódio racista das ruas e aparatos de repressão.

Na verdade, são muito fortes as suspeitas de que por trás das legislações dos países que optam pelo “jus sanguinis” há motivações racistas. Por consequência, nada mais coerente com o fascismo de Trump que a tentativa de adotar uma prerrogativa baseada na herança sanguínea.

Até porque tudo indica que o novo chefe de um dos países mais racistas do mundo pretende derramar muito sangue de não brancos em solo estadunidense e fora dele.

Leia também: Trump, Debord e a prevalência do falso

11 de dezembro de 2024

Um Brasil paralelo disposto a tudo

A Brasil Paralelo é uma produtora de vídeos criada em 2016, tendo se tornado uma das principais difusoras das ideias de direita no país. Seus conteúdos incluem aulas, vídeos e livros de história e filosofia.

Entre as teses que defende, estão o “descobrimento do Brasil” como um evento civilizatório para os povos ameríndios e o golpe de 64 como o episódio que impediu a instalação de uma ditadura comunista no Brasil.

A derrota eleitoral do bolsonarismo em 2022 não diminuiu a influência da produtora extremista. Ao contrário, os números abaixo são do episódio 128, do podcast Rádio Escafandro e deixam claro como a Brasil Paralelo continua firme, forte e perigosa.

Trata-se do maior anunciante brasileiro no Instagram e Facebook. As duas plataformas receberam da produtora R$ 25 milhões em anúncios, nos últimos 4 anos. O que dá R$ 6.250 milhões anuais ou quase R$ 521 mil mensais.

São 4 milhões de seguidores no Youtube e 400 mil assinaturas vitalícias em suas plataformas. Atualmente, a assinatura vitalícia mais barata sai por R$ 1.620 e a mais cara R$ 6.360.

Mais recentemente, a Brasil Paralelo passou a distribuir seu material a centenas de escolas e instituições de caridade, defendendo uma versão falsa e reacionária da história do País para crianças e jovens.

Mas uma coisa não se pode negar. O nome escolhido para a produtora é perfeito. Há um Brasil paralelo reacionário e golpista atuando fortemente. Não apenas nas redes virtuais e escolas, mas nos três poderes, incluindo vários postos no atual governo, e nas Forças Armadas, claro. Estão dispostos a tudo. Estão prontos para o pior.

Leia também: O Orvil e o Brasil Paralelo

13 de novembro de 2024

O fascismo e a violência corriqueira do capital

Rui Tavares, historiador português, político e colunista da Folha, lançou recentemente no Brasil o livro "Agora, Agora e Mais Agora". Reinaldo José Lopes, jornalista do mesmo jornal, o entrevistou em 09/11/2024. Abaixo, alguns trechos:

Se a democracia foi desenhada e pensada como um jogo no qual podemos nos opor uns aos outros, mas no qual sabemos que estamos limitados por determinadas regras, o que acontece com os nacional-populistas, com os neofascistas, podemos chamá-los por vários nomes, é que fundamentalmente eles têm uma atitude de insinceridade em relação ao jogo. Participam, mas não acreditam nele e querem acabar com ele.

Há cem anos, decidiram ser tolerantes com Hitler depois que ele passou alguns meses preso por uma tentativa de golpe de Estado. Ele acabou sendo libertado. Acreditou-se que o regime democrático, na Alemanha de então, era um recipiente vazio em que todas as posições deviam estar em pé de igualdade.

É impossível não pensar o que teria acontecido se a República alemã tivesse sido um pouco mais convicta e menos ingênua na defesa de seus valores. A democracia não se defende passivamente, e não podemos ficar de braços cruzados.

Para bom entendedor, meia palavra: Bolso...

Mas os recentes ataques ocorridos em Brasília parecem desmentir Tavares quando ele compara a democracia a um jogo. Seria melhor lembrar Clausewitz, que considerava a guerra como continuação da política por outros meios. Para os fascistas, porém, não há diferença substancial entre guerra e política. Esta última, para eles, apenas deve utilizar a mesma violência contra os de baixo que já faz parte do funcionamento corriqueiro da dominação capitalista.

Leia também: O fracasso e o vexame do 8 de Janeiro

5 de novembro de 2024

De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

“Não vai acontecer aqui” é um romance, de 1935, do escritor estadunidense Sinclair Lewis. Publicado durante a ascensão do fascismo na Europa, descreve a eleição de um senador fictício para Presidente dos Estados Unidos. Suas promessas de campanha incluíam reformas econômicas e sociais drásticas e o regresso ao patriotismo e aos valores tradicionais. Após a eleição, o novo presidente se torna ditador com a ajuda de uma implacável força paramilitar à semelhança das SS nazistas.

As informações acima são da Wikipédia.

Em 1931, três anos antes da publicação do livro de Lewis, “policiais de Los Angeles cercaram um parque público frequentado por latinos, prenderam 400 pessoas, todos de pele escura, enquanto o mesmo se repetia em hospitais, mercados, igrejas, clubes e associações. Em pouco tempo, mais de 1,8 milhão de mexicanos foram deportados por ordem do governo de Herbert Hoover – 60% com cidadania americana”.

O relato acima é da jornalista Dorrit Harazim. E o trecho abaixo é de um artigo de Vijay Prashad:

Em 1964, o marxista polonês Michał Kalecki escreveu o artigo “O fascismo de nossos tempos”. Nele, Kalecki disse que “embora não aprecie a ideia de grupos fascistas tomarem o poder, a classe dominante como um todo não faz nenhum esforço para suprimi-los e se limita a reprimendas por excesso de zelo”.

Essa atitude persiste até hoje: a classe dominante como um todo não teme a ascensão desses grupos fascistas, mas apenas seu comportamento “excessivo”, enquanto as seções mais reacionárias das grandes empresas apoiam financeiramente esses grupos.

Ou seja, se Trump voltar ao poder, os últimos na fila dos culpados serão os eleitores estadunidenses.

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

16 de outubro de 2024

A luta de classes no oco do mundo

Rosana Pinheiro-Machado é uma antropóloga que vem realizando estudos de campo com moradores da periferia das grandes cidades há mais de uma década. Em entrevista à revista eletrônica CTXT, ela afirma que suas pesquisas indicam “fortes evidências de que os setores que escaparam à pobreza apoiam políticos autoritários. A insuficiência do setor público e a precariedade do mercado de trabalho, diz ela, proporcionam o cenário perfeito para que figuras conservadoras do marketing digital se tornem novos líderes políticos”. Segundo Rosana, muitas pessoas entram nessa lógica porque querem melhorar de vida, mas acabam caindo em redes de extrema-direita.

Citando Pablo Marçal, a antropóloga lembra que ele “conhece todas as técnicas populistas. Domina redes, algoritmos, invade o cérebro das pessoas, estuda neurolinguística”. E exemplifica destacando uma frase em que Marçal se referia a Guilherme Boulos: "O outro lá invade terrenos. Eu invado cérebros. Entro no cérebro da pessoa, faço ela ficar com raiva e depois pulo para o outro lado".

Marçal utiliza técnicas capazes de atrair pobres e remediados. Transforma milhões de frustrados pelas falsas promessas de prosperidade em pessoas socialmente egoístas e selvagens. Ocupa a vida oca dos ressentidos, os enfurece e pula “para o outro lado”.

E deste lado, ficamos nós, entregando pacotes vazios, etiquetados com palavras abstratas como “austeridade”, “responsabilidade fiscal” e “união nacional”. Não à toa, a raiva sentida pela maioria pobre da população se transforma em votos conservadores e em mobilização fascista.

Marçal, Bolsonaro e outras lideranças canalhas só fazem o que boa parte da esquerda deixou de fazer: travar a luta de classes bem no meio do oco do mundo.

Leia também:  A esfinge dialética: decifra-me, enquanto te devoro

21 de setembro de 2024

O nome do jogo é fascismo

Franco Berardi publicou recentemente o artigo “Para uma Antropologia do novo fascismo”. Nele, o filósofo italiano afirma que nos debates sobre o crescimento do fascismo, ninguém explica o mais importante: “a qualidade antropológica e psíquica que está por trás da adesão em massa aos movimentos ultrarreacionários”.

Para Berardi, com a “dimensão rápida da tecnologia eletrônica, o pensamento se torna impróprio para a crítica e o pensamento mitológico é restaurado”.

Ainda segundo ele, levantamentos recentes estimam que o tempo médio gasto diariamente pela maioria das pessoas nas redes virtuais é de treze horas. Desse modo:

...a mente submetida ao bombardeio ininterrupto de impulsos eletrônicos, independentemente de seu conteúdo, funciona de forma completamente diferente da mente alfabética, que tinha a capacidade de discriminar entre o verdadeiro e o falso nas informações e que tinha a capacidade de construir um procedimento de elaboração individual. Na verdade, essa capacidade depende do tempo de processamento emocional e racional, que, no caso de um jovem que vive treze horas por dia na infosfera eletrônica, é reduzido a zero. A distinção entre a verdade e a falsidade torna-se não apenas difícil, mas irrelevante, como quando se está em um ambiente de jogo. Em um ambiente como esse, não faz sentido aprovar ou desaprovar a violência dos homens verdes que invadem o planeta vermelho. Fazer isso só serviria para perder o jogo.

Por falar em jogo, um estudo recente estima que Pablo Marçal em apenas uma das várias gincanas de vídeos que promove conseguiu 492 milhões de visualizações. Taí um bom exemplo do novo tipo de animal humano que vem sendo formado.

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A escravidão assalariada há 200 anos e hoje
Marçal: um “downgrade” no bolsonarismo

11 de setembro de 2024

Marçal: um “downgrade” no bolsonarismo

A extrema-direita, como muitos já observaram, é um simulacro de revolução. E a revolução tem seu lado destrutivo e iconoclasta, mas também seu lado esperançoso, afirmativo, com promessa de futuro. O bolsonarismo é a encenação falsa do primeiro aspecto, o Pablo Marçal do segundo – por isso tem potencial de ser ainda mais atrativo.

As palavras acima foram postadas por Diogo Fagundes, no Facebook. As que estão logo abaixo são do colunista Juliano Spyer, na Folha:

Marçal é um candidato duro de ser combatido por representar um pacote que reúne defesa da família e combate ao comunismo, visto como doutrina que escraviza o pobre a sua condição de dependência. Ele encarna a ideia de que "aprender a pescar" é melhor do que depender do governo. E se apropriou da mensagem pentecostal antissistema, de quem é perseguido por seguir o chamado de Deus.

Isso deixa adversários de Marçal em uma posição incômoda. Ao atacá-lo, atacam também o sonho – muitas vezes desesperado – de quem se sente perseguido e busca, pelo cristianismo, um caminho para prosperar.

Por fim, uma citação da coluna de Miriam Leitão no Globo, sobre a manifestação de Bolsonaro, na Paulista, no dia 07/09/2024:

Na disputa paulista também o que se vê é que o prefeito Ricardo Nunes foi esquecido no fundo do palanque e o candidato Pablo Marçal usou a passeata para fazer seu show à parte.

Três fragmentos que indicam a formação de um todo: a extrema direita conseguindo reciclar e piorar o bolsonarismo. A palavra “upgrade” costuma ser traduzida como “atualização”, no sentido positivo. No caso, trata-se de um “downgrade” e em ritmo acelerado.

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13 de junho de 2024

Europa: preparando o terreno para o fascismo

O resultado das eleições para o Parlamento Europeu foi divulgado com alarde pela imprensa. Forças fascistas e ultraconservadoras de França, Alemanha e Itália conquistaram muitas cadeiras, sinalizando um avanço ainda maior da extrema direita no continente, diz a grande mídia.

Mas isso é só parte da verdade. O artigo de Antônio Martins publciado no portal Outras Palavras começa a explicar a situação por seu título “Europa: o Partido da Guerra perdeu”. O autor refere-se principalmente às forças partidárias do presidente da França, Emmanuel Macron, e do chanceler da Alemanha, Olaf Scholz. Com as votações pífias em seus respectivos partidos, os dois chefes de governo foram desmoralizados. Ambos apoiaram com entusiasmo a guerra promovida pelos Estados Unidos contra a Rússia, através da Ucrânia. A verdade é que tanto franceses como alemães sentiram as consequências desse apoio devido aos problemas econômicos causados pelo rompimento comercial com a Rússia e aos cortes nos programas sociais para aumentar gastos militares.

Enquanto a guerra continua matando e destruindo, sem uma derrota da Rússia no horizonte, milhões de europeus desacreditam de seus governos e procuram alternativas. Infelizmente, praticamente toda a esquerda alemã e francesa é favorável à guerra. Resultado: a revolta e o ressentimento popular foram facilmente capitalizados pelas forças ultraconservadoras, cujo autoritarismo, racismo, xenofobia e selvageria social perderam importância diante das denúncias contra a guerra.

Como diz Martins, governos ditos democráticos que se subordinam aos interesses de minorias ricas e ao imperialismo preparam o terreno para o fascismo. A situação no Brasil tem muitas diferenças, mas elas não são tantas que nos livrem de passar pelo mesmo.

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18 de março de 2024

Neoliberalismo e extremismo de direita

Fundamentalismo religioso, guerra híbrida, dissonância cognitiva, militarismo, anarcocapitalismo, caos informativo, neofascismo. Estas são apenas algumas das chaves explicativas presentes no debate sobre a onda ultraconservadora que vem varrendo o mundo. Mas que elemento ideológico poderia dar coerência a esse caos conceitual? Um bom palpite é: o neoliberalismo.

Segundo Gramsci, a ideologia dominante reúne os elementos díspares e contraditórios que estão espalhados pelo senso comum para combiná-los de forma a justificar a ordem social. O resultado é uma massaroca que mistura religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc.

Ora, o neoliberalismo vem cumprindo perfeitamente essa função. Longe de ser apenas um modelo econômico, é uma racionalidade que penetrou toda a sociedade. Manifesta-se, por exemplo, na teologia que concebe a fé como instrumento de sucesso pessoal, no empreendedorismo como forma de ascensão social nas periferias e na organização racional da criminalidade promovida pelo PCC. Está na empresa e no sindicato. Nos governos, partidos, igrejas, mídias, universidades, ONGs. Ela impõe a mercantilização e financeirização da vida e um individualismo mergulhado na concorrência selvagem. Contaminou todas as esferas sociais, incluindo amplos setores da esquerda.

São muitas décadas de hegemonia neoliberal na Europa e Estados Unidos. Nos países dependentes, esse processo começou atrasado, mas foi sincronizado pela crise de 2008. Uma crise que o neoliberalismo criou e para a qual apresentou como solução a generalização do extremismo de direita a que estamos assistindo nos últimos anos.

Combater o neoliberalismo de forma abstrata não é suficiente para nos tirar dessa enorme encrenca. Mas se continuarmos a ignorá-lo vamos afundar ainda mais na barbárie.

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8 de dezembro de 2023

O lulismo e a dieta do caranguejo

O governo Lula segue envolvido com acordos no Congresso, nomeações no STF, negociações com empresários, militares, latifundiários, governadores. Em meio a todos eles, muitos golpistas. Já as negociações, incluem negociatas de todo tipo e tamanho.

Quando surgiu como grande liderança sindical, nos anos 1970, Lula havia sido eleito presidente do sindicato do ABC com a bênção de pelegos da ditadura. Eles pretendiam transformar a jovem e talentosa liderança em seu fantoche. Não deu certo. Lula acabou comandando uma greve que abalou o governo dos militares, mas também lhe valeu uma temporada na cadeia.

Diferente de vários setores de esquerda, Lula representa as forças que optaram por tensionar a ampliação dos limites da democracia brasileira sem rompê-los. Isso inclui disputar eleições pra valer e não como tática para um possível levante popular ou revolução.

À frente do PT, perdeu todas as eleições presidenciais pau-a-pau com os favoritos do grande capital até ser eleito. Mas, tal como na convivência com os pelegos, assimilou vários setores da burguesia em suas coalizões governamentais.

Lula não desistiu da traiçoeira democracia nacional nem mesmo quando ela o devolveu à prisão. Nunca o perdoaram pela insistência em tentar alargar a acanhada democracia brasileira. Hoje, defende um grande acordo nacional que inclui vários de seus carcereiros.

O projeto lulista tenta abrir caminhos por dentro dos intestinos da democracia brasileira. O perigo é acabar como aqueles caranguejos que se alimentam das entranhas de animais mortos. Pode até saciar, mas um cadáver é sempre um cadáver. E quando se trata de uma democracia tão moribunda como mortal, é grande o risco de agonizar dentro dela.

Leia também: Não há cheque em branco nenhum para Lula

20 de junho de 2023

A aliança entre o fascismo e a ralé criminosa

Em 1940, Himmler, inspirado por Hitler, decidiu criar um corpo especial recrutado entre presos condenados por caça ilegal. Segundo o Führer: “Em combate, eu preferia comandar uma seção formada por caçadores ilegais do que pelos advogados que os condenaram”.

Hitler era vegetariano, mas considerava a caça ilegal o “lado romântico” da matança de animais.

À frente do “comando de caçadores” foi colocado Oskar Dirlewanger, um misto de facínora e valentão. Em agosto de 1934, por exemplo, fora condenado a dois anos de prisão por ter provocado vários acidentes de automóvel ao dirigir bêbado e por manter relações sexuais com uma menor de idade.

Recrutados nas cadeias em que cumpriam sentença, os caçadores foram transferidos para um campo de concentração, onde receberam treinamento militar e desde julho de 1940 até junho de 1942 constituíram 94% dos efetivos daquela divisão. Dirlewanger chefiou com mão de ferro aquele contingente de presidiários e o usou para ações de enorme crueldade.

Mas o elevado número de baixas entre os caçadores levou a que, em setembro de 1942, começassem a ser alistados contrabandistas presos com armas na mão. Possivelmente, rodeados da mesma aura romântica que Hitler enxergava nos caçadores ilegais.

Acontece que os contrabandistas também não foram suficientes para compensar as baixas e Himmler propôs a Dirlewanger o recrutamento de bandidos comuns, presos em campos de concentração.

O relato acima está no livro “Labirintos do Fascismo”, de João Bernardo. Mostra como as relações da extrema-direita com a criminalidade mais rasteira e truculenta são antigas. Não é inovação de Bolsonaro, seus caçadores milicianos, motoristas bêbados, sociopatas pedófilos e contraventores em geral.

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19 de junho de 2023

Junho de 2013: serpentes e possibilidades

Junho de 2013 foi um acontecimento objetivo da luta de classes. Iniciado por movimentos como o da luta pelo Passe Livre, a dimensão gigantesca que suas manifestações assumiram não foi resultado da ação de nenhum ator político.

As forças que participavam dos acontecimentos não conseguiram ou não pretendiam imprimir-lhes uma direção centralizada ou pauta unificada. Mas seu perfil de esquerda era inegável.

Se a situação econômica era relativamente estável, não se podia dizer o mesmo das lutas sociais. Em 2013, o número de greves no país atingiu o maior índice em décadas. Mas nem a esquerda governista nem a oposicionista conseguiram transformar essa elevada temperatura sindical em apoio a seus respectivos projetos.

Elemento fundamental era uma sociedade com uma enorme demanda represada por justiça social frente a uma estrutura de dominação totalmente avessa a tal pretensão. Mesmo a chamada “inclusão pelo consumo” promovida pelo projeto petista mostrou-se tão inaceitável pelos de cima como insuficiente diante dos anseios vindos de baixo.

Outro elemento objetivo era um partido de esquerda ocupando a presidência da república há uma década. Refém e cúmplice do pacto pela “governabilidade”, a reação do petismo oficial foi truculenta e intolerante.

Junho surpreendeu a esquerda moderada e a radical; a direita tradicional e sua ala selvagem. Mas somente esta última saberia explorar, nos anos seguintes, as contradições expostas pelos acontecimentos de 2013.

Tudo isso mostra que menos que ovos de serpente, havia muitas possibilidades promissoras que foram pisoteadas. Ignorar toda essa complexidade nos levará a cometer erros ainda mais graves na eventualidade nada desprezível de outro Junho acontecer.

Leia também: Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

16 de junho de 2023

Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

Momento definidor da intervenção política das Forças Armadas no caminho da ascensão de Bolsonaro ao poder foi a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Entre 2004 e 2017, o braço militar dessa missão foi comandado pelo Exército brasileiro, que enviou 37,5 mil soldados ao país caribenho.

Em 6 de julho de 2005, as tropas comandadas pelos brasileiros iniciaram o que chamaram de operação de pacificação na Cité Soleil, maior favela de capital haitiana. Cerca de 300 homens fortemente armados invadiram o bairro e assassinaram 63 pessoas, deixando outras 30 feridas. Na época, o comandante da operação era o general Augusto Heleno.

Pacificação. Esse nome também batizaria as intervenções em grandes favelas brasileiras. Consideradas bem-sucedidas durante um tempo, essas operações nunca superaram seu caráter estritamente repressivo, sem maiores preocupações relacionadas à melhora nas condições de saúde, educação, saneamento e empregos nos lugares em que foram implantadas.

Pacificação é o que os governos petistas propuseram, enquanto milhares de pobres e não brancos continuavam a morrer na guerra que o Estado trava contra eles. Este é outro elemento fundamental a permitir que a cobra fascista preparasse seu bote.

Anos depois, Bolsonaro, eleito presidente, nomeou para o Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno; para a Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz; e para Comandante do Exército, Edson Leal Pujol. Todos estiveram no Haiti entre 2007 e 2014.

As informações acima estão no livro “O Fascismo Brasileiro”, de Rudá Ricci. Mostram, novamente, que o ovo da serpente fascista estava sendo incubado nas barbas do governo. Não nas ruas, em junho de 2013.

Leia também: Junho de 2013: o ninho fisiológico

15 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho fisiológico

Em 6 de junho de 2005, o então deputado Roberto Jefferson declarou à Folha de S. Paulo que o PT pagava a parlamentares R$ 30 mil mensais para votar pela aprovação de projetos de interesse do governo petista na Câmara Federal.

O partido se defendeu dizendo que eram recursos financeiros oriundos de Caixa Dois, utilizados para acertar dívidas de campanhas eleitorais. A grande imprensa e o Judiciário encontraram no episódio a oportunidade de ouro para abreviar o primeiro mandato de Lula. Acabou não dando certo, mas o caso mostrou até que ponto o PT se deixou enredar nos esquemas corruptos presentes na administração pública nacional desde sempre.

Mas o pior é que não serviu de lição. O PT continuou se submetendo aos esquemas fisiológicos impostos pela política institucional. Esses métodos sempre contaram com a tolerância cúmplice e interesseira do judiciário e da grande imprensa. O problema é que o tratamento mudou radicalmente frente ao governo de um partido ligado aos movimentos sociais e por eles apoiado.

Assim, o que parecia superado pela reeleição de Lula em 2006, estava apenas incubado, esperando por novas oportunidades. E elas vieram com a confiança em nomeações pretensamente amigáveis no STF, a postura submissa frente às manipulações dos monopólios de comunicação e a escolha de um Michel Temer para vice de Dilma. Sem falar na inexplicável crença no compromisso das Forças Armadas com a democracia. Mas isso fica para depois.

Por ora, voltemos à inevitável e já repetitiva pergunta: diante de todo esse histórico, alguém ainda acha que o ovo da serpente fascista foi chocado em Junho de 2013?

Leia também: Junho de 2013: o ninho empresarial

14 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho empresarial

Em seu livro “Fascismo Brasileiro”, Rudá Ricci destaca o modo como empresariado nacional reagiu aos direitos sociais reconhecidos pela Constituição de 1988. Para eles, tratava-se de uma ameaça ao livre-mercado e uma “retomada da pauta comunista”.

Surgem, então, organizações como a União Democrática Ruralista, União Brasileira de Empresários, Câmara de Estudos e Debates Econômicos e Sociais e Grupo de Líderes Empresariais.

A partir de 1990, a militância política do alto empresariado nacional se intensificou e passou a disseminar seus valores, recrutando militantes jovens e organizando mobilizações de massa. Nesse período surgiu o Instituto Millenium, fundado por acadêmicos, executivos e profissionais liberais, como Denis Rosenfield, Paulo Guedes, Rodrigo Constantino e Hélio Beltrão. Os três últimos envolvidos diretamente com o golpe contra Dilma e o apoio a Bolsonaro.

Começava a ser montado o cenário que levaria aos ataques abertamente golpistas até desembocarem no impeachment, em 2016.

Presente em todas essas iniciativas estava Jorge Gerdau. Presidente da maior empresa brasileira produtora de aço, ele teve grande influência na gestão de estatais brasileiras nos governos petistas. Em especial, sob Dilma Rousseff, quando presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás e o Conselho de Desenvolvimento.

Mas nada disso impediu, por exemplo, que num jantar promovido pela Fiesp, em 27/08/2015, Gerdau afirmasse que a indústria estava “morrendo”. Sobre o governo Dilma, já sob forte ataque golpista e que o acolheu tão bem, nenhuma palavra de defesa.

Tem gente da esquerda que enxerga em Junho de 2013 o ovo da serpente fascista. Mas na época, um desses ninhos amaldiçoados já estava instalado nas dependências do Palácio da Alvorada há muito tempo.
 
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13 de junho de 2023

Junho de 2013: vai prevalecendo a versão conservadora

“A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que oprime o cérebro dos vivos”. Esta passagem do “18 Brumário”, de Karl Marx, foi citada na apresentação feita por Luís Carlos Petry para o livro “Fascismo Brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente”, de Rudá Ricci.

Petry utiliza a citação para abordar as idas e vindas do fenômeno fascista em nossa história. Mas, talvez, ela sirva para mostrar como uma imagem distorcida de Junho de 2013 também vem oprimindo cérebros no interior da própria esquerda.

A esse propósito, vale destacar uma pesquisa feita recentemente pelo Ipec/O GLOBO sobre os eventos de 2013. Ela revela, por exemplo, que para 38% dos eleitores lulistas, “os protestos trouxeram consequências negativas ou mais negativas do que positivas”. Já entre os eleitores bolsonaristas, esse número cai para 30%. Além disso, entre os bolsonaristas, 21% se dizem orgulhosos de terem apoiado os atos, contra apenas 13% dos lulistas.

A pesquisa ajuda a mostrar como a representação social das Jornadas de Junho foi sendo apropriada pelo campo conservador, de modo a parecer um momento de despertar de sua militância. Na verdade, a tomada das ruas pela extrema-direita viria a ocorrer somente em 2014.

Essa confusão é conveniente para que os ultraconservadores tentem se legitimar como força antissistêmica. Por outro lado, essa “narrativa” também foi endossada por setores da esquerda.

Nesse caso, tais segmentos tratam Junho de 2013 como o momento em que foi chocado o “ovo da serpente” fascista. Mas veremos, em breve, que os ninhos malditos estavam localizados bem menos nas ruas e muito mais nos palácios.

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